TEORIA E DEBATE, EDIÇÃO 27 (01.12.1994)
A edição, dedicada aos 15 anos da anistia, foi ilustrada em sua totalidade pelas obras dos presos políticos de São Paulo entre 1969 e 1979. Confira a íntegra de três reportagens que apresentam os artistas e o contexto em que as obras foram produzidas: Pequenas insurreições – memórias, Fazendo arte na cadeia e Quem pintou na cadeia. Para ver os textos completos deste e outros números da revista, visite a página teoriaedebate.org.br
PEQUENAS INSURREIÇÕES – MEMÓRIAS por Alipio Freire
Passados 15 anos, a Anistia continua um tema presente
“Pequenas insurreições – memórias” foi o nome da exposição organizada pelas entidades promotoras do Prêmio Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos, em 1984, primeira vez em que foram apresentados 300 trabalhos realizados pelos presos políticos em São Paulo, entre os anos de 1969-79, quando foi votada a Anistia que completava então cinco anos.
Agora que em agosto passado a Anistia completou 15 anos, T&D decidiu, tomando de empréstimo o mesmo título, publicar alguns trabalhos que participaram daquela exposição.”Pequenas insurreições – memórias” foi o nome da exposição organizada pelas entidades promotoras do Prêmio Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos, em 1984, primeira vez em que foram apresentados 300 trabalhos realizados pelos presos políticos em São Paulo, entre os anos de 1969-79, quando foi votada a Anistia que completava então cinco anos.
Agora que em agosto passado a Anistia completou 15 anos, T&D decidiu, tomando de empréstimo o mesmo título, publicar alguns trabalhos que participaram daquela exposição.
Nosso critério de seleção buscou contemplar o mais amplo universo. Mesclamos pessoas que já se dedicavam regular e/ou profissionalmente às artes plásticas antes de serem presas como Ferro, Lefèvre, Sister, Takaoka, com outros que o fizeram apenas durante o período de prisão, como Jorge Baptista, Zé Wilson ou Buzzoni (dados sobre os autores no rodapé das páginas 52 a 59). Outro critério foi o de contemplar o mais amplo espectro das organizações políticas de então, bem como as diversas linguagens utilizadas. Além de outras qualidades, esses trabalhos não foram realizados visando à “posteridade”, diferentemente de alguns textos e cartas de empostação postiça que são publicados hoje como documentos.
Para termos um quadro do fazer em artes plásticas nos presídios, convidamos Sérgio Sister que dá depoimento a este respeito (pág. 52).
Mas, além do discurso (plástico) dos presos e da poesia da capa, trazemos também nesta seqüência, sob a rubrica de “Anistia”, o depoimento de um outro sujeito desse processo, os organizadores dos Comitês Brasileiros pela Anistia, os CBAs. Quem dá conta disso é Hélio Bacha, um dos empenhados militantes e coordenadores do CBA-SP, além de Helena Greco na seção Memória.
Por fim, o artigo de Myrian Alves (pág. 58), trata do filme Vala Comum, de João Godoy, sobre a vala do Cemitério de Perus, em S. Paulo, que abrigava mais de mil ossadas de anônimos, entre os quais militantes de esquerda assassinados durante a ditadura.
Passados 15 anos, a Anistia continua um tema presente. Como presente continua o golpe militar. Não se pode pensar a insistência nessas memórias, como algo saudosista ou rançoso, principalmente se somos capazes de identificar a permanência de homens como Marco Maciel na Vice-presidência da República ou de ações como a do Exército nos morras cariocas.
Assim como não podemos entender república sem reforma agrária, é impossível imaginar uma democracia que lança seus alicerces sobre uma “anistia recíproca”.
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FAZENDO ARTE NA CADEIA por Ségio Sister
O que fica de interessante é como aquele trabalho funcionou na recuperação de uma identidade e na apropriação de um espaço espiritual numa época de trevas
Talvez o menos interessante naquele trabalho que eu fazia na cadeia seja a obra de arte em si. Não que a gente deva evitar tratá-la como tal. Seria indulgência demais, porque, como a maioria dos artistas presos, pelo menos a partir de um certo momento, tive a intenção de um fazer artístico moderno e culturalmente atuante; e nesse sentido, olhando bem, de todos os lados, acho, sinceramente, que as obras deixam muito a desejar.
Passados praticamente 25 anos, o que fica de interessante, para mim, é como aquele trabalho funcionou na recuperação de uma identidade e na elaboração de um senso de apropriação de um espaço espiritual numa época de trevas.
Depois de um mês de sufoco no Dops, já no Presídio Tiradentes, em fevereiro de 1970, eu não conseguia mais me identificar com qualquer daqueles papéis que desempenhava até então como jornalista, estudante de ciências sociais e, muito menos, como artista. Não cabia. Eu era apenas um preso, sem previsão ou expectativa de liberdade e sem mesmo muita certeza de preservação da integridade física. Foi assim até receber da Bela, minha namorada, uma caixa de crayon e um caderno de desenho.
Desenhei, então, todos os dias, como nunca havia feito antes. Era uma espécie de crônica para registrar o que se passava entre nós. Procurava criar símbolos gráficos e cores, com anotações sobre choques elétricos, a tranca, a porrada; que mostrassem os companheiros de cela, as histórias do Valdizar, o julgamento. Era uma coisa muito de dentro da cadeia, meio como deve ser num hospício, sem propriamente a pretensão de participar de algo culturalmente mais amplo, mais envolvente. Pelo menos até a chegada dos arquitetos. Antes de ser arte, queria ser um testemunho ilustrado, um documento. Aliás, submetido regularmente à censura. Os desenhos eram vistos pelas autoridades carcerárias exatamente como documento. Tanto que vez ou outra – como durante uma greve de fome do frei Giorgio Callegari – eram apreendidos pela direção do presídio a título de “prova”, por retratarem a situação de indisciplina e subversão da ordem.
Com o tempo, passou a haver alguma troca de idéias com o Alipio Freire, o Carlos Takaoka, o José Wilson. Acho que mais com o Alipio porque eu tinha participado com ele de uma exposição no Museu de Arte Contemporânea em 1967, a “Jovem Arte Contemporânea”. Os novos materiais que a Bela levava – canetinhas hidrográficas, vidrinhos com as cores psicodélicas de ecoline e bons papéis -, permitiram alguma diversificação da linguagem. Mas tudo isso tinha um caráter mais afetivo, de um fazer bonito, despreocupado, muito próprio da cadeia.
Com a chegada dos arquitetos – Sérgio Ferro, Rodrigo Lefèvre, Júlio Barone, Carlos Henrique Heck e Sérgio Souza Lima – foi que o trabalho artístico passou a pretender uma ligação maior com o mundo da arte. O que Ferro, Lefèvre e Heck faziam recolocou para mim aquilo que empolgou verdadeiramente minha geração nos anos 60: a pop art. E foi ali, pela primeira vez, que ouvi falar de gestalt e de certa arte povera. E, é claro, da “tar” da crise do suporte.
Esse pessoal, primeiro, funcionou como um suposto saber, que reconhecia na gente o artista. Depois, como agentes do mundo maior das artes e da cultura. E, finalmente, como demonstradores – e muitas vezes provedores – de uma profusão de materiais, de tintas acrílicas, papel duplex, telas, pincéis e uma parafernália de coisas e coisinhas que o Ferro, em especial, juntava para compor seus trabalhos. Fitas, miçangas, papéis metalizados, colas, arames, bandeirinhas. É difícil imaginar o encanto com aquelas coisas todas.
Peguei uma big carona naquele super atelier que se montou ali. E não foi só o fazer: também, pela primeira vez, passei a dar importância às questões teóricas da arte, que a gente fazia mais por intuição, quando entrou no grande barco da pop a partir de 1965.
A gente colava, recortava, pintava em cima, pintava embaixo, pendurava coisas. Algo que se estendeu depois da libertação e que durou, de alguma forma, até a década de 80.
Mas eu insisto: o que menos interessa nessas produções talvez seja seu caráter artístico. Falo do meu trabalho, ainda que isso possa valer também para alguns outros.
Tínhamos um entendimento falso da pop. Mais ou menos como os chineses da bienal de 1994, que pegam o mesmo bonde, instrumentalizando-o para sua luta política. Entramos na pop porque parecia um meio moderno de arte, próprio para nosso combate revolucionário. Era agressiva, irônica, bem-humorada e carregava um arsenal de ícones suficiente para alimentar nosso discurso. Ao contrário dos americanos, que partiam da banalização da imagem para anulá-la como centro e como alvo do olhar, nós colocamos os ícones como a voz mais forte, a representação. O plano servia para trazer mais rápido nossas questões para a frente. Os temas foram mudando um pouco na cadeia, mas o resultado era o mesmo. Olhe bem detidamente para as nossas produções daquela época e você vai ver, de alguma maneira, a reiteração de uma composição bem tradicional, com figura e fundo, claro/escuro, perspectiva e até secção áurea. Valiam. Mas muito mais como um experimento, um estudo, uma descoberta. Reiterando e ensaiando uma ruptura. Como na política.
Sérgio Sister é jornalista e artista plástico
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QUEM PINTOU NA CADEIA por Alipio Freire
Os trabalhos que ilustram a versão impressa desta edição foram realizados nos presídios políticos de São Paulo (SP), entre 1969-79
Na primeira capa, um desenho de Sérgio Ferro, realizado no Presídio Tiradentes. Neste trabalho, a pintor inspirou-se nos zengakurens* que enfrentaram nos anos 70 a polícia japonesa contra a construção do aeroporto de Narita. Os zengakurens usavam lanças ‘de bambu de grandes comprimentos e coquetéis molotov. Na última capa, reproduzimos um detalhe do mesmo desenho, em que o autor utiliza a letra do alfabeto hebraico, otsade, cujo significado simbólico na cabala liga-se à carta do arcano XVIII, a Lua – no tarô de Marselha e na maioria dos tarôs. Ferro estudou os símbolos e signos via o tarô de Marselha. Isto é importante para entender porquê do espaço do plano ocupado pela explosão do coquetel molotov, onde se insere o tsade, no trabalho que publicamos, corresponde ao lugar que a lua ocupa no plano da carta no tarô de Marselha – deslocada para a esquerda do plano –, o que não acontece necessariamente em todos os tarôs. A Lua, que em nossa cultura está associada à poesia, na carta do tarô que examinamos representa a vida da imaginação, além da vida espiritual, e ao mesmo tempo lança luz sobre a nossa natureza animal e, mais que isto, sobre aquela parte oculta e cujo nome não é pronunciado do espírito humano, a “que dá dentro de gente que não devia/ que desacata a gente, que é revelia” (Chico Buarque). Este tensão encontrada na Lua do tarô, Ferro irá reconhecer na estrutura gráfica do tsade que ele geometriza e submete aos conhecimentos da gestáltica sobre as linhas de força do plano. Ou seja, a diagonal ascendente (a da “realização”, da “gratificação”, do “futuro”) que se desenvolve no sentido do canto inferior direito do plano para o canto superior esquerdo, cortada (no tsade) pela diagonal descendente (a da “tragédia”) que se desenvolve no sentido do cento superior direito ao canto inferior esquerdo do piano. Otsade (a Lua) está colocado no desenho de Ferro no interior de explosão do molotov atirado pelo jovem, antes de ser alvejado. Aquela época, Ferro, além de pesquisar a obra de Michelangelo, estava interessado em estudar símbolos da cabala, do tarô e da alquimia. Ferro nasceu em Curitiba (PR), em 1938, foi preso em 1970 em São Paulo (SP), sendo submetido a interrogatório no DOI-Codi e Dops. Aguardou julgamento e cumpriu pena no Presídio Tiradentes de onde foi libertado em 1971, exilando-se na França. Militante da Ação de Libertação Nacional (ALN), quando foi preso, Sérgio era artista plástico, arquiteto e professor da FAU-USP. Na França, lecionou Arquitetura e História da Arte na École d’Architecture de Grenoble. O desenho que publicamos na capa e o estudo (pág. 341 foram realizados no Tiradentes, em 1971.
Angela M. Rocha
Nascida em Ribeirão Preto (SP), em 1947, foi presa em 1971, em Porto Alegre (RS), e transferida em seguida para São Paulo, onde passou por interrogatórios na Oban e no Dops, indo aguardar julgamento e posteriormente cumprir pena no Presídio Tiradentes e Penitenciária Feminina, ambos em São Paulo. Os desenhos que publicamos (pág. 3 e 5) foram feitos no Tiradentes (1972). Militante do Partido Operário Comunista (POC), Ângela era estudante de arquitetura (FAU-USP) quando foi presa. Libertada em 1976, hoje é arquiteta, professora de história de arte e da arquitetura e artista plástica.
Arthur Scavone
Nascido em São Paulo (SP), em 1949, foi preso em 1972, em São Paulo pelo DOI-Codi, onde foi interrogado e transferido posteriormente para a Dops paulista. Militante do Movimento de Libertação Popular (Molipo), Scavone aguardou julgamento e cumpriu pena no Presídio Tiradentes, Carandiru, Penitenciária e Presídio do Barro Branco (todos em São Paulo). As xilogravuras (pág. 16 e 19) foram feitas no Barro Branco em 1976. Scavone dividia a execução dos trabalhos com outros companheiros. Estudante de física na USP na época de prisão, foi libertado em 1977. Hoje é jornalista e faz parte do Diretório Nacional do PT.
Bartolomeu José Gomes, o Bartô
Nascido em lpueiras (CE), por volta de 1948, foi preso em 1972, em São Paulo pelo DOI-Codi e em seguida encaminhado ao Dops-SP, onde prosseguiram os interrogatórios. Aguardou e cumpriu pena nos presídios Tiradentes e Carandiru (ambos em São Paulo), sendo libertado em 1973. Bartô, militante da Fração Bolchevique de IV Internacional, estudava artes plásticas, e fazia teatro quando foi preso. Depois de solto, voltou para Fortaleza (CE), onde dava aulas de geografia em cursinhos para vestibular e fez teatro. No final dos anos 50, volta à sua cidade de origem, onde se suicida. Os trabalhos que apresentamos (págs. 13 e 15) foram realizados no Carandiru em 1973.
Carlos Henrique Heck
Nascido em São Carlos (SP), em 1937, foi preso em São Paulo (SP), em 1970, pelo DOI-Codi, onde foi submetido a interrogatórios que se repetiram no Dops. Aguardou julgamento e cumpriu pena no Presídio Tiradentes, sendo libertado em 1971. Posteriormente exilou-se na Inglaterra e na França, onde lecionou na Faculdade de Arquitetura de Grenoble, retornando ao Brasil em 1986. Militante ALN, quando da sua prisão, Heck era arquiteto e professor de desenho e composição no Instituto de Arte e Decoração (IAD). Hoje é arquiteto, professor de projeto no Mackenzie e técnico de planejamento na Emplasa. Seu trabalho (págs. 33 e 34) foi realizado no Tiradentes em 1971.
Carlos Takaoka
Nascido em São Paulo (SP), em 1945, foi detido uma primeira vez em 1968, e encaminhado ao Dops-SP como dirigente do movimento estudantil. Volta a ser preso em 1969 como militante da Ala Vermelha pela Oban, onde é interrogado e depois submetido a novos interrogatórios no Dops-SP. Aguardou julgamento e cumpriu pena no Presídio Tiradentes, Carandiru e Penitenciária (todos em São Paulo), sendo libertado em 1974. Os desenhos (págs. 59 e 61) foram realizados em 1970 e 1973, respectivamente, nos presídios Tiradentes e Carandiru. Quando da prisão, Takaoka era estudante de ciências sociais (USP) e artista plástico. Hoje é escritor e artista plástico.
Henrique Buzzoni
Nascido em São Paulo (SP), em 1944, foi preso em 1975 sendo libertado e logo, em 1976, voltou à prisão para cumprir pena de 1 ano, no Presídio do Hipódromo. Militante do Partido Comunista Brasileiro (PCB), Buzzoni era advogado, quando da sua prisão. Hoje prossegue na sua profissão, na especialidade do Direito Coletivo do Trabalho. O trabalho que publicamos (pág. 27) é o primeiro que Buzzoni realizou, e resulta de um curso que a jornalista Radhá Abramo organizou para os presos. Datado de 1976, o trabalho foi realizado no Hipódromo.
Jorge Baptista Filho
Nascido em 1943 (circa) em Minas Gerais, foi preso em 1968 no Congresso da UNE de Ibiúna (SP) como liderança estudantil. Identificado posteriormente como militante de Vanguarda Armada Revolucionária Palmares (VAR-Palmares), foi diversas vezes interrogado pela Oban, DOI-Codi e Dops de São Paulo. Preso para aguardar julgamento no Presídio Tiradentes é transferido posteriormente para o Presídio de Linhares (MG), de onde é solto em 1972 (circa), indo morar em seguida em Natal (RN), onde casa com a líder estudantil Ana Valderez. Mudam-se para São Paulo (SP) ainda no final dos anos 70 e participam da fundação do PT. Jorge era estudante de jornalismo quando foi preso, tornando-se depois da cadeia jornalista e professor. No natal de 1988, Jorge, Ana e seu filho mais velho, Breno, morrem em acidente de automóvel. O trabalho que publicamos é o retrato de seu irmão (pág. 55) realizado no Presídio Tiradentes em 1972.
José Wilson
Foi preso em São Paulo (SP) em 1970, com cerca de 23 anos, passando sucessivamente por interrogatórios no DOI-Codi e Dops. Aguardou julgamento e cumpriu pena no Presídio Tiradentes. Foi preso como militante do PCdoB e depois de solto tornou-se jornalista. Hemofílico, morre de Aids em 1990. Seu desenho (pág. 53) foi realizado no Tiradentes em 1971 e representa o julgamento do Partido Comunista Brasileiro Revolucionário (PCBR) em São Paulo, no qual se vê as figuras de Jacob Gorender, Sérgio Sister, Valdizar Pinto do Carmo, Aytan Sipahi e Adilson Citelli.
Manoel Cyrillo de Oliveira Netto
Nascido em Salvador (BA), em 1946, foi preso em 1969, em São Paulo (SP), passando sucessivamente por interrogatórios na Oban e Dops. Aguardou julgamento e cumpriu pena no Presídio Tiradentes, Carandiru, Penitenciária, Presídio Barro Branco (todos em São Paulo). Militante da Ação de Libertação Nacional (ALN), Mané Cyrilio era químico industrial quando foi preso. Libertado depois da anistia de 1979, hoje ele é publicitário em Campinas (SP). Os trabalhos que apresentamos (págs. 20, 23 e 25) foram realizados na Penitenciária, em 1974.
Régis Andrade
Nascido em São Paulo (SP) em 1938, foi preso em 1970, em São Paulo (SP), passando por interrogatórios no Dops e depois na Oban. Aguardou julgamento e cumpriu pena no Presídio Tiradentes, de onde foi libertado em 1972. Militante do POC, Régis era professor de economia em Bauru (SP) quando foi preso. Hoje é diretor do CEDEC e professor do Departamento de Ciência Política da USP. O trabalho que publicamos (pág. 54) é o retrato do dirigente preso do PCdoB, Diógenes de Arruda Câmara, feito no Tiradentes em 1971.
Rodrigo Lefèvre
Nascido em São Paulo (SP), em 1938, foi preso em 1970, em São Paulo passando por sucessivos interrogatórios na Oban e Dops. Aguardou julgamento no Presídio Tiradentes, sendo libertado em 1971. Militante da Ação de Libertação Nacional (ALNI, Rodrigo era arquiteto quando foi preso. Em 1975 vai morar na França, retornando ao Brasil em 1976. Em 1983, transfere-se para a Guiné Bissau para trabalhar num projeto de arquitetura para o governo na área de saúde, onde morre em acidente automobilístico em 1984. Rodrigo, dos artistas aqui apresentados, é o único de quem escolhemos trabalhos com suporte de madeira, diferentemente dos demais, dos quais selecionamos apenas obras sobre papel. Os trabalhos que apresentamos (págs. 56 e 57) são retratos, respectivamente, do seu pai e de sua esposa, Gilda Vampré, realizados no Tiradentes em 1971.
Sérgio Sister
Nascido em São Paulo (SP), em 1948,foi preso em 1970, sendo submetido a interrogatório no Dops. Aguardou julgamento e cumpriu pena no Presídio Tiradentes, de onde saiu em 1971. Militante do Partido Comunista Brasileiro Revolucionário (PCBR), Sister era jornalista, artista plástico e estudante de ciências sociais quando foi preso. Fundador do PT, hoje ele prossegue como jornalista e artista plástico. Seus trabalhos (págs. 35 e 37) foram realizados no Tiradentes em 1970. No segundo, o da pág. 37, a inscrição titulo no canto superior direito “4º ANDAR”, indica o andar onde estava instalada a sala de interrogatório e tortura do Dops paulista. Leia também o depoimento de Sérgio Sister na pág. 52 desta edição sobre a arte na cadeia.
Yoshia Takaoka
Nascido em Tóquio (Japão) em 1909, foi preso em 1964, em Parati (RJ), sendo transferido para Niterói (RJ) e por fim para a Dops-SP, de onde foi liberado. Na prisão de Parati, Yoshia – embora não fosse cristão – pintou numa das paredes de cela um Cristo com a inscrição: “Este sofreu mais que eu”. A cela tornou-se alvo de curiosidade do público que afluía para ver a pintura, cuja tinta foi feita a partir de restos de cigarros dissolvidos. Para evitar a permanência da memória, as autoridades mandaram caiar a cela e apagar o trabalho do artista. Yoshia prosseguiu em sua arte até 1978, quando faleceu. Os desenhos que publicamos (págs. 62 a 68) fazem parte de uma “cartilha” para aprender japonês que Yoshia desenvolveu no início dos anos 60, para sua filha Neide e que posteriormente levou para o Presídio Tiradentes, em 1971, onde estavam dois de seus filhos: Carlos, também artista plástico (ver pág. 55) e Luís, médico. Da mesma “cartilha” é o desenho que ilustra o selo das matérias sobre a Anistia.
* Zengakuren é uma liga de associações de estudantes universitários fundada em 1948 no Japão.





