Jornal Folha de São Paulo – 1977 a 1980
“O ano era 1977. Ainda vivíamos sob a ditadura civil-militar – em abril o Congresso foi fechado durante 15 dias pelo general de plantão, Ernesto Geisel. Mas também foi o ano em que o silêncio começou a ser rompido. Os estudantes reocuparam as ruas com a palavra de ordem Pelas Liberdades Democráticas e realizaram as primeiras passeatas desde 1968. Os movimentos sociais se reorganizavam.
Na Editoria de Internacional, nossa atenção estava voltada para o que acontecia fora do país, em particular para os protestos criativos de estudantes e operários nas cidades de Bolonha e Roma, na Itália, os avanços da frente sandinista na Nicarágua, a emancipação anticolonial nos países africanos, a onda direitista na Tomando café entre um telex e outro ou diante da máquina de escrever tentando dar forma às notícias, as conversas com o Alípio eram frequentes e vêm fortemente à lembrança. Escuto a sua voz, calma e assertiva. Os acontecimentos adquiriam sentido através dos seus comentários e reflexões. As tiras de papel não eram mais fragmentos de realidade mas iam tecendo uma rede que ajudava a compreender o mundo e ao mesmo tempo o papel que nos cabia nesse conjunto aparentemente caótico. Eram aulas de geopolítica, embora muito longe de terem o tom sério ou professoral da academia. Ao contrário, eram pontuadas por seu humor fino e perspicácia aguda. Acho que todos nós, da Editoria de Internacional da Folha de São Paulo entre 1977 e 1980 somos de algum modo tributários da cultura e do conhecimento do Alípio e de sua maneira generosa de compartilhar esse conhecimento com aquela jovem equipe de jornalistas, ávidos por interpretar o mundo para transformá-lo em profundidade. Latino América. As notícias ainda chegavam por telex – lentamente, em longas tiras de papel.
Foi na Folha de São Paulo que vivemos a greve dos jornalistas em 1979. Nas reuniões sindicais e na organização dos companheiros de redação, na qual Alípio teve um papel preponderante. Mais do que uma simples reivindicação salarial, um movimento que se politizava pelo exemplo dos trabalhadores do ABC e pela necessidade de confrontar a ditadura e o cerceamento às informações. Embora a mobilização tenha sido grande, gráficos e radialistas não pararam. Os jornais continuaram a circular, apesar da campanha estampada nos grafittis: “não compre jornais, minta você mesmo”. O fracasso da greve ajudou a alavancar nas posições chave das redações a banda pior da categoria. Mas as conversas com o Alípio, sobre o papel social do jornalista e a ética na profissão, ecoaram durante toda a minha vida profissional.“ (Trecho do texto Alipio, para quem o limite sempre foi apenas um novo começo de Adelina Schlaich) LEIA+
“O Sindicato dos Jornalistas resgata uma consistente trajetória profissional e sua atuação nas mobilizações e greves da categoria. Saindo da cadeia em 1974, você trabalhou na Folha de S. Paulo e me lembro do orgulho que eu sentia vendo que um de nós, os perigosos e malditos “terroristas” do Tiradentes, escrevia agora como editor internacional num jornal de ampla tiragem. Sua mesa ficava bem perto de Perseu Abramo, na redação comandada por Claudio Abramo, cuja esposa Radah, crítica de arte, visitou vocês no Tiradentes e escreveu sobre os desenhos, pinturas e gravuras de sua autoria, de Sérgio Sister e de Carlos Takaoka. A cultura e a arte sobreviviam no cotidiano das celas, fecundando a vida e a resistência.
Em 1978, você se tornou presidente da representação que a ABI decidiu abrir em São Paulo, sob a batuta de Barbosa Lima Sobrinho. Tanto você quanto Perseu e dezenas de outros foram banidos para sempre dos jornalões, na esteira da repressão que os principais veículos articularam como vingança pela greve daquele ano, inédita pelo grau de adesão dos jornalistas.
O tiro patronal sairia pela culatra. Muitos dos atingidos passaram a dedicar-se com centralidade ao fortalecimento da imprensa popular e democrática que avançava a passos largos naquela trilha aberta pelo Pasquim, pelo Opinião e pelo Movimento. Por tantos outros veículos que nasciam dispostos a enfrentar a ditadura. Cada dia mais encurralada.“ (Trecho do texto “Carta aberta a Alípio Viana Freire”de Paulo Vannuchi) LEIA+
1978 – Presidente da ABI São Paulo
“Alípio, aliás, deixou um vínculo fortíssimo com a ABI. Com a criação pelo doutor Barbosa Lima da representação da nossa entidade aqui em São Paulo, Alípio foi o primeiro presidente da diretoria (1978-1980). Participou, em nome da ABI, de todos os movimentos de oposição ao regime militar. Eu fui o segundo presidente da diretoria (1980-1982) e segui os mesmos passos.
Conheci o Alípio na redação da Folha de S. Paulo, na segunda metade dos anos 70. Ele, subeditor de internacional e eu, repórter político. Foi, inclusive, ao lado de Perseu Abramo, um dos principais mentores da nossa greve de 1979. Nestas reuniões preparatórias, muitas vezes realizadas na própria redação do jornal, para desespero do secretário de redação, ficamos mais próximos. Ao lado de tantos outros profissionais, fomos também demitidos da Folha por conta da greve.“ (Trecho do texto “Obrigado, Alipio” – Portal dos Jornalistas de Ricardo Carvalho) LEIA+
Texto de Alipio Freire sobre Perseu Abramo
Um total desapego ao poder | Alipio Freire
Se não a melhor, uma das melhores formas de conhecermos uma pessoa é observar a maneira como ela exerce poder, por mais ínfimo e restrito que este seja. LEIA+