O Centro MariAntonia da USP inaugurou, no dia 27 de abril, a exposição Imagem-Testemunho: experiências artísticas de presos políticos na ditadura […] . Realizada em parceria com o Memorial da Resistência, a mostra inclui desenhos, pinturas, colagens e gravuras realizadas por 12 presos políticos durante os anos 70 em presídios de São Paulo. Estas imagens-testemunhos, reunidas durante anos pelos ex-presos políticos Alipio Freire e Rita Sipahi, integram, desde 2023, o acervo do Memorial da Resistência de São Paulo, que conta atualmente com mais de 300 obras.
Com curadoria da pesquisadora e crítica de arte Priscila Arantes, a mostra traz produções criadas em diferentes presídios da cidade de São Paulo – Tiradentes, Carandiru, Penitenciária Feminina, Hipódromo, Presídio Militar Romão Gomes (Barro Branco) – e do Departamento de Ordem Política e Social (DOPS).
Os 41 trabalhos, elaborados com materiais encontrados dentro do espaço prisional ou trazidos por parentes e amigos para seu interior, constituem um conjunto de experiências de presos de diferentes organizações políticas, alguns deles artistas antes de serem presos, outros que só tiveram esta experiência durante o período de confinamento. Além do conjunto de obras artísticas, a exposição inclui 16 outros documentos, 7 depoimentos em vídeos especialmente produzidos para a mostra e um conjunto de atividades culturais e educativas a ela relacionadas.
Integrantes da mostra: Aldo Arantes | Alípio Freire | Ângela Rocha | Artur Scavone | Carlos Takaoka | José Wilson | Manoel Cyrillo | Regis Andrade | Sérgio Ferro | Sérgio Sister | Rita Sipahi | Yoshiya Takaoka.
Na noite de 27 de abril de 2023, vaga-lumes denunciavam a escuridão
por Edilson Dias de Moura
As luzes do pátio do Centro MariAntonia, na noite do dia 27, sinalizavam a entrada onde ocorreria a inauguração da exposição Imagem-Testemunho: experiências artísticas de presos políticos na ditadura civil-militar. Ao chegar, esperávamos ver ali as quarenta e uma peças produzidas por doze autores, ex-presos políticos, selecionados de uma amostragem de mais de 300 peças coletadas por Alipio Freire e Rita Sipahi ao longo de aproximadamente 50 anos. Na verdade, bem mais que elas, um espetáculo de luzes nos esperava – um “prenúncio de Aurora”. Afinal, vimos ali mais do que peças do acervo, hoje sob os cuidados do Memorial da Resistência de São Paulo. Elas preocupavam constantemente o escritor, sobretudo por sua convicção profunda do valor histórico que possuem – convicção da qual fui testemunha quando, em 2017, a convite dele, visitei o Ateliê 22.
Naquela tarde, Alipio apresentou o ateliê, mostrou livros e algumas das peças que ele preservava há anos. O reconhecimento de algumas delas na inauguração da exposição me transportou para aquele dia, confirmando as profundas convicções do valor histórico desses objetos enquanto memória da luta pela democracia e pelos direitos humanos no Brasil, bem como do potencial transformador delas na formação das novas gerações. Isso porque, antecedendo o momento da abertura das portas que nos dariam acesso aos objetos da coleção, estava-nos reservado o reconhecimento do que talvez tenha sido para mim a mais importante virtude do Alipio: a capacidade tremenda de agregar e de reunir em seu entorno pessoas dispostas à luta, de todas as gerações, de todas as religiões, de todas as cores, personificando-se na metáfora e na alegoria dos grilos e vaga-lumes de seus versos reproduzidos na parede do salão superior da MariAntonia:
Os grilos se perguntam dos caminhos.
Descaminhos.
Os vaga-lumes denunciam a escuridão.
[…]
(Estação Paraíso, Alipio Freire)
Pequeninos vaga-lumes que somos, viemos de todas as partes, atendendo ao chamado do poeta e de seus versos para denunciar as trevas ideológicas, desejosos, como ele, de uma divisão total dos bens da Aurora, com toda a humanidade. Reunindo-nos ali no pavilhão de entrada da exposição, puseram-se essas luzes a brilhar, uma a uma, acesas na produção de um espetáculo que confessadamente eu não esperava presenciar, entoadas nos versos de um velho ateu, poeta, que na madrugada cantava, creio eu, à espera da Aurora e das luzes que ela iria acender. Acesas nas homenagens do Cordão da Mentira e das Mães de Maio a Alipio, passando pelas falas de jovens e adolescentes; as de José Lira, Priscila Arantes, Rita Sipahi; da vice-reitora Maria Arminda Nascimento Arruda e da professora Marli Quadros Leite; de ex-companheiros de cela de Alipio e companheiros vindos de muito longe apenas para dizer que, sim, a luta vai continuar.
Tratava-se, pois, daqueles a quem o poeta dedicou seus mais importantes momentos e dividiu suas mais preciosas horas de vida, para quem reservou naquele dia 27 de abril a oportunidade de desfrutar de um desejo seu muito antigo, que não poderia ter outro efeito senão o de uma forte comoção, um desejo de dizer “muito obrigado, companheiro!” Pelo fato de existirmos e, reunidos ali, nos encontrar e nos reconhecer uns nos outros sob os auspícios da aurora da socialização das artes e da defesa da liberdade e de sua preservação:
Aurora
eu te diviso
ainda tímida
inexperiente
das luzes
que vais acender
dos bens
que repartirás
com todos os homens
[…]
(Estação Paraíso, Alipio Freire)
Ao passo que nos apropriávamos das luzes acesas nos dois andares do Centro MariAntonia, cumpria-se parte do prenúncio dos bens repartidos, que íamos acolhendo em nossa memória a cada quadro visto, cada desenho observado, por cada pintura analisada que passávamos, como quem tomava posse e consciência de seu destino enquanto seres predestinados à liberdade e à vida, bens inalienáveis dos quais nenhum de nós ali presentes, ou não presentes, podiam nem podem prescindir.
Putabraço, companheiro Alipio! Obrigado por dedicar-nos tão vivo apreço!
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O fotógrafo Ennio Brauns registrou em fotos e vídeos a noite de abertura da Exposição Imagem-Testemunho e compilou uma apresentação para quem não pôde estar presente. Confira!
Clipping da Exposição Imagem e Testemunho