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Causos

A maioria desses textos foram retirados do grupo de Whatsapp durante a internação do Alipio. A proposta na época era, em meio a toda aquela apreensão, poder falar dele com um sorriso no rosto… 

“Meu caro Alípio, tive o privilégio e o prazer de trabalhar contigo na Revista Projeto. Você jornalista, eu porteiro, porém você não reparava essa diferença”. De modo que eu me considerava seu amigo, pois ganhei de você um livro do seu colega Jacob Gorender com dedicatória sua, só porque me viu lendo OS CARBONÁRIOS do Alfredo Sirkis. E por muitas vezes, tomamos vários chopes na Real, fraternalmente. Continuo porteiro e a minha admiração pela sua pessoa também continua.”
Adonisvaldo Cordeiro de Souza

“Nos idos temos de formação do PT, eu tinha um Fiat 147 a alcool, meu primeiro carro zero. E tínhamos um vício, Alipio, Luizão e eu. Terminávamos as reuniões e esticávamos noite adentro prá aprimorar as atas e debates. Alguns eram Pessoas de reconhecida expressão social, outras só faziam as intermináveis atas. O Alipio tinha uma regra, não sei se a mantém até hoje. A cada dois conhaques,  uma coca-cola. Isso nos manteria sóbrios noite adentro. Sempre acreditei. O duro era que o cavalheirismo sobrevivia em qualquer situação: o Fiat verdinho ainda não tinha a ignição salvadora, era a primeira leva de carros a alcool. Vai daí que a carona era sempre precedida de um valoroso empurra-empurra pro carrinho pegar no tranco. Não sei se a carona valia a pena. A noitada era divertidíssima!
Beatriz Beá Tibiriçá

“Estava eu de volta de Belém do Pará, fiz uma escala em Salvador para visitar minha família. Meu cunhado paraense, Pedro Torres, me pede para levar um presente para as primas dele que moravam no Corredor da Vitória, na Mansão dos Viana, na capital soteropolitana. Chego lá com a sacola de cupuaçus, pesados feito a porra (desculpe Rita), duas senhoras muito elegantes me recebem. Pensei em entregar a encomenda e vazar, afinal, estava vis-a-vis com a família real da Roma Negra, saindo da praia, não precisava entrar. Mas não. As mulheres pedem para eu adentrar a área. Me tratam muito bem, “você é irmã de Mirian, gostamos muito dela, Pedro é nosso primo, e desandam a falar, coisa que baiano não gosta, né não? Por fim, licor de genipapo, café, começou o interrogatório. Onde você mora, em que bairro, o que você faz. São Paulo,  jornalista. Ah, então você conhece o Alipio, ele é jornalista também. Retruco: claro, quem não conhece o Alipio? As duas trocam olhares. Alipio é nosso sobrinho, lindo, inteligente, maravilhoso. Sim, sim, é esse mesmo, reafirmo. “Fui professora dele, inteligente demais”, diz Elizete. Dois terços da burguesia negra baiana, que se sentem nórdicos (aliás, o Alipio diz que nós dois nascemos à beira de um fiorde norueguês), tinham passado pelos bancos escolares das duas mestras. “Fui professora de Antonio Carlos Magalhães”. À menção do velho bruxo, me benzi. Fiquei arrepiada, veio a minha mente a pasta rosa, Itamar Franco pedindo para ACM mostrar à imprensa. Divagações, camaradas leitores. Doida pra ir embora e elas bambam-caixa-de fósforo, como se diz na terrinha pra conversa fiada. Chega o momento magistral. “Você sabe que a gente criou Alipio pra estudar no Itamaraty,ser embaixador do Brasil? Não deu certo. Um rapaz tão fino, bonito e inteligente… “. Com a voz quase inaudível ela sussurra e revela, envergonhada, o grande segredo. “Ele é comunista, acabou no comunismo”.  Sobrou pra mim: “Você também é, não é ?“. Olhei para todas as janelas do apartamento. Estavam fechadas com as belas cortinas cerradas. Decidi sair pela porta.”
Lisete

“Vou contar uma história de uma faceta mais nova do Alipio, de ator. Íamos filmar no interior, e ele estava no carro, junto com o ator que ia contracenar com ele, Antonio Petrin, e o motorista. Quando eles chegaram no sítio, o Antonio Petrin me chamou revoltado em um canto. Ele me disse: “Você vai me colocar para contracenar com um louco!”. E contou que o Alipio, no meio da viagem, na fila do pedágio, desceu do carro para fumar, e seguiu andando uma parte do caminho, no meio da estrada.
Neste mesmo dia Alipio disse para uma das minhas filhas, Isadora, que na época tinha 4 anos, que ele era primo do Papai Noel, por isso tinha aquela barba. Isso foi há alguns anos, mas até hoje a Isa pede para o “vovô” Alipio os presentes de natal, que ela acredita piamente que é primo do bom velhinho.
Tiago Mendonça

“Tem um causo que o Alipio sempre conta, e a gente sempre racha o bico. de uma mobilização e comício improvisado na Freguesia do Ó, fins dos anos 1980, faltou energia na hora. Com uma espécie de caixote tornado palco, e megafone, muita gente reunida (não lembro se era campanha municipal da Erundina de 88, ou se a do Lula de 89).
Chegou a vez do Suplicy subir no caixote e se pronunciar… Ele começou a protestar naquele flow particular que ele já tinha desde lá e tal, meio pausado, falando dos problemas do bairro, da precariedade e da… Falta de energia. Aí quando ele apontou pra cima pras lâmpadas dos postes elétricos pra denunciar o descaso, na mesma hora voltou a energia… As ruas se iluminaram de novo, mas o Suplicy congelou de susto, perdeu a deixa retórica… Alipio conta que, após alguns longos segundos de impasse ali, ele e alguns compas logo puxaram em resgate um “Fiat Lux! Viva o PT, viva o Suplicy! Viva o Poder Popular dos Trabalhadores!, e foi aquela catarse…”
Danilo Cesar

“Alipio tem um coração gigante. Lembro das vezes que o encontrei para almoçarmos juntos, a gente sempre precisava calcular um tempo dilatado. Quando morava em Santa Cecília, no caminho entre a casa e a padaria da Alameda Barros (ou Rua das Palmeiras, não me lembro bem), Alipio parava para falar com todos os homens e jovens em situação de rua, cada um recebia um dinheirinho, um bom dia olho no olho e saudação de esperança. Sempre dizia para não desistirem.

Galdino e a banalização da vida.
Em abril de 1997, nos encontramos no antigo bandeijão da PUC-SP para falar sobre um projeto embrionário, a Revista Sem Terra. Marcou muito esse dia porque pouco tempo antes ocorreu aquela tragédia no Distrito Federal, onde jovens de classe média incendiaram Galdino, o indígena. Em muitos anos de convivência, foi uma das vezes que vi Alipio chorar. Alterado, fumando muito, dizia que havíamos chegado ao fundo do poço, pois já havia gente escrota criando filhos com desprezo pelos pobres, era a banalização da vida em estado puro.
Concluímos que o melhor a se fazer naquele momento era trabalhar numa revista com o MST, o oposto daquela história de merda que vitimou Galdino.“
Rogério Chaves

“Quando estávamos a frente do governo PT em Campinas (2001-2004), Alipio na equipe de comunicação, ele coordenou a elaboração de um caderno com uma síntese das ações do Governo.
Na cidade,  um único jornal, a serviço das elites, pautava os demais meios de comunicação com uma oposição ferrenha ao governo democratico e popular do PT. Ao apresentar o trabalho de reciclagem nas cooperativas, colocou o jornal na esteira. Foi muito divertido a reação dos colunistas opositores! Alipio sempre tinha ações sábias para enfrentar as oposições truculentas!“
Izalene Tiene

“Lá pelas tantas, acho que em 2005, tal como as minhas hoje, as juntas do Alipio começaram a falhar. Num passeio de fim-de-semana no Embu das Artes, ocorreu-me comprar uma bengala para presentear Alipio, que se encantou com ela e tornou-a acessório de todo o tempo.
Já em 2006, no intervalo entre o primeiro e o segundo turnos da eleição presidencial, numa reunião de avaliação política, um dos companheiros participantes irritou-se com uma intervenção que fiz e veio em minha direção com intuitos claramente pouco pacíficos. Entre mim e ele, porém, levantou-se Alipio com a bengala na mão erguida à altura do rosto e ordenou-lhe que voltasse a seu lugar. Depois de uma eternidade de alguns segundos de estupefação de todos na sala, o companheiro exaltado deu volta e sentou no seu lugar. Até hoje não sei se o que o demoveu foi a bengala ameaçadora ou a figura daquela personagem de Antonio Conselheiro que se ergueu impactante e autoritativo exibindo-a a modo de estandarte. Seja por um ou por outro motivo, sempre agradeci a mim mesmo ter propiciado a união entre o objeto e o objetor da agressão que se prenunciava e que o Alipio impossibilitou.“
Fon

“Convivi quando da fundação e nos primeiros anos do PT quase diariamente com o Alipio. Na primeira comissão provisória do PT paulista e em sua primeira executiva. Para dar uma ideia do amigo, lembro um episódio: juntos no refeitório de um hotel fazenda tínhamos de ouvir uns bolsonaristas policiais (eles sempre estiveram por ai) a lamentar o enterro de primeira dado a um traficante morto no Rio. “Onde iá se viu! Enterrar com honras um bandido. um assassino, perguntavam em voz alta”. Eu vi, levantou o Alipio: Garrastazu Médici. O tempo fechou. Só faltou tiro no refeitório. Grande Alipio.”

“Criado o PT, cada grupo tinha uma bandeira ou simbolo. Colocar cores e simbolos em votação? Alipio sugeriu: arranjamos um arquiteto, criamos a identidade visual e mandamos produzir em larga escala: estrelinha branca, pt vermelho, vice versa, bandeiras idem. Fomos para as portas do trem de chegada e davamos uma bandeira para cada um. No melhor estilo chines. corbeilles de bandeiras no palco. nos postes. Um decorador, esse Alipio. No comicio de santo amaro. por inundação imperial, firmaram-se os simbolos e bandeiras do PT.”
Luizão Carvalho

“Três da madrugada, quase nada, a cidade abandonada…” , e uma estação de metrô que parecia vazia, senão por passos que seguiam no mesmo sentido de Alipio, quando esse para, e olha para trás, visualiza um homem que o torturou no Tiradentes, nesse momento o torturador reconhece-o e dá meia volta. Vendo-o assim apavorado, Alipio caminha atrás dele com passos largos e firmes, o homem desaparece na estação.
Moral da história, não ser mole com o inimigo, covardia não é virtude
Fatima Sipahi

“Tem outra história hilária que o Ala sempre reconta, e sempre rachamos o bico juntos, divido aqui com vocês… (vou omitir um nome específico da história, mas se trata de pura verdade – apurada nos tempos de tranca – que outros camaradas do Alípio aqui devem bem conhecer, e não me deixariam mentir). Era segundo semestre de 1968, ainda antes do AI-5, então outro grande camarada do Alipio, guerrilheiro que estava exilado fazia meses a fio em algum país latino-americano, com pouca comunicação com o mundo exterior para além da sua organização revolucionária, enfim, conseguiu articular o seu retorno ao Brasil de avião, com identidade falsificada, por óbvio, pra seguir a luta pela revolução brasileira em solo nacional, a princípio, na clandestinidade por aqui, de volta ao país. Conseguiu, então, embarcar e, logo após o pouso da aeronave, por uma questão de segurança, tratou de observar bem nas janelas do avião para avaliar as condições de segurança do Aeroporto, creio que o Galeão no Rio; e também cuidou de ser um dos últimos a sair do vôo, pelas mesmas razões. Sei que todo mundo foi descendo da aeronave antes dele, um a um, restando ao final das contas apenas esse velho camarada do Alipio e uma mulher linda demais, exuberante, que tal camarada já começou a pensar se tratar de uma companheira-em-resistência também, tal qual ele, trocaram alguns olhares, aquela especulação… Eis que ambos, enfim, tomam a iniciativa de descer ao mesmo tempo da embarcação: tal camarada toma à frente e, conforme ia se aproximando da escada, observou um conjunto grande de repórteres e, talvez, outras autoridades nacionais, tapete vermelho soviético inclusive, postados bem na frente, ao pé da escada de saída da nave… Relata o Alipio que tal camarada não pensou duas vezes: por alguns minutos teve certeza que se tratava da cobertura e cerimônia de recepção-surpresa para celebrar o retorno do exílio de grandes combatentes, como ele e a bela guerrilheira que retornava no seu mesmo vôo, então estufou o peito e, antes de descer, pensou consigo mesmo: “Vencemos! A Revolução Brasileira, enfim, triunfou!”. Descobrindo, na sequência, para a sua enorme frustração, poucos minutos após o desembarque e muitos flashes direcionados, na verdade, apenas à moça que descia consigo da Aeronave: tratava-se de Martha Vasconcellos, recém-eleita Miss Brasil em 1968, representante do país no concurso Miss Universo daquele ano… Voltando de alguma agenda internacional. Este camarada do Ala foi do assalto dos céus à volta para o inferno do chão da resistência clandestina, em poucos minutos….Kkkkkk“
Danilo Cesar