Revista T&D, EDIÇÃO 30 (15/12/1995)
Direitos Humanos | Introdução e Clarice Herzog
por Alipio Freire
Introdução
Depoimentos e análises sobre os legados deixados pelos mortos e desaparecidos da ditadura militar e o despontar do resgate da memória por alguns governos petistas
Seis assassinatos marcam a fase final da ditadura gerida pelos militares no Brasil: Vladimir Herzog (out. 75), Manoel Fiel Filho (jan. 76), Pedro Pomar, Ângelo Arroyo e João Baptista Drummond (dez. 76) e Santo Dias (out. 79).
O massacre da Lapa (São Paulo – SP), quando foram assassinados no local Pomar e Arroyo e, Drummond, já nas instalações da Operação Bandeirantes, significou o último golpe da direita contra organizações de esquerda de inspiração marxista que pegaram em armas. Na Lapa esteve reunida a mais alta direção do PCdoB, responsável pela guerrilha do Araguaia. A guerrilha fora derrotada e seus combatentes permanecem até hoje “desaparecidos”. Na Lapa, avaliava-se exatamente o episódio, e a direção do PCdoB – meio a divergências – buscava novos rumos para sua política.
O isolamento que as Forças Armadas impuseram ao Araguaia, de certo modo estendeu-se àquele massacre. Apesar dos protestos e das notícias terem sido veiculados pela grande mídia; apesar da pronta intervenção de Dom Paulo Evaristo Arns, cardeal arcebispo de São Paulo – graças à qual se evitou que outros presos tivessem a mesma sorte de Drummond; apesar da indignação de vários setores, a condenação desse massacre que completará em dezembro 20 anos, não se traduziu em manifestação coletiva, massiva.
Os casos Herzog, Fiel Filho e Santo Dias, no entanto, marearão de outro modo a política brasileira. No caso Herzog, o culto ecumênico realizado na Sé de São Paulo e que reuniu mais de 10 mil pessoas, representou a primeira grande manifestação pública de protesto desde a decretação do AI-5 (dez. 68).
No caso Fiel Filho, a pressão política levou à primeira derrubada (pelas forças mais progressistas da sociedade de então) de um general da ditadura: Eduardo D’Ávila Mello, comandante do II Exército, responsável pela Oban, onde foram assassinados Herzog e Fiel Filho.
Por fim, o assassinato de Santo Dias levou às ruas de São Paulo mais de 30 mil pessoas que acompanharam seu cortejo fúnebre.
Estas e outras considerações dão a dimensão do legado político desses companheiros que representam centenas de outros mortos e “desaparecidos”. No entanto, há um outra tipo de herança, mais pessoal, mais próxima. Individual. E é isto que vamos buscar em entrevistas com Clarice, Tereza e Ana, viúvas respectivamente de Vladimir, Fiel Filho e Santo. Uma amostra da situação e do entendimento dos familiares dos mortos e “desaparecidos”.
A postura do stablishment brasileiro desde a Anistia de 1979, foi a de dar o assunto por encerrado. Porém, os familiares, com persistência e tenacidade, têm encontrado fôlego para resistir, pressionar e obter vitórias – mesmo que parciais. Além dos familiares, serão alguns amigos e umas poucas centenas de homens e mulheres que vêm insistindo no assunto. As autoridades de plantão desde o fim da ditadura negaceiam mas acabam obrigadas a conceder. A última delas, a lei de FHC. Sobre isto, fala o deputado Nilmário Miranda (PT-MG), presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara Federal e autor do projeto que a instituiu. Outras comissões do gênero vêm sendo criadas e implantadas. A mais recente é a da Assembléia Legislativa de São Paulo, proposta e presidida pelo deputado Renato Simões (PT-SP).
Algumas prefeituras também trabalham esta questão. Em março de 94 (30 anos do golpe), a vereadora Maria do Rosário (PT – Porto Alegre/RS) apresentou à Câmara local projeto de lei que autorizou o Executivo municipal a construir um monumento em memória dos mortos e “desaparecidos”. Depois de concurso público, a Prefeitura de Porto Alegre, dirigida pelo petista Tarso Genro, inaugurou em novembro passado um Memorial aos Mortos e Desaparecidos. Enquanto isso, em Diadema (SP), o prefeito José de Filippi Júnior inicia campanha em defesa dos Direitos Humanos, colocando os nomes de Heleny Guariba (“desaparecida” desde 71) e Vladimir Herzog em dois centros culturais, e Manoel Fiei Filho e Devanir José de Carvalho (assassinado em 1971) em prédios que abrigam simultaneamente escolas e creches municipais.
Ao mesmo tempo, a Companhia Editora de Pernambuco e o governo desse estado imprimem e publicam com prefácio de Dom Paulo Evaristo Arns e apresentação do governador de Pernambuco, Miguel Arraes (PSB), o mais completo Dossiê dos Mortos e Desaparecidos Políticos a Partir de 1964 de que temos notícia. O trabalho foi organizado pela Comissão de Familiares de Mortos e Desaparecidos, pelo Instituto de Estudo da Violência do Estado-IVE, e pelos grupos Tortura Nunca Mais do Rio de Janeiro e de Pernambuco.
Todas essas iniciativas, capitaneadas quase sempre por petistas – como o importante trabalho de Luíza Erundina em torno da descoberta da sinistra Vala de Perus, onde “desaparecidos” vão sendo a cada dia identificados meio a mais de um milhar de ossadas de “indigentes”, e que resultou na instalação da CEI da Câmara Municipal paulistana na qual se destacaram os vereadores petistas Thereza Laiolo e Ítalo Cardoso – não derivam no entanto de uma política clara do Partido dos Trabalhadores.
Para completar o quadro, convidamos Luci Gati e Cecília Coimbra a escreverem ensaios sobre o assunto. Luci trata da “Herança dos Herdeiros”, ou seja, dos caminhos da elaboração da subjetividade dos familiares dos “desaparecidos”. Cecília Coimbra, por sua vez, trata especificamente da utilização das técnicas “psi” (da psicologia e da psicanálise em suas diversas variantes) pelo regime militar, no sentido de patologizar a militância política dos anos 60 e 70 e as tentativas daqueles senhores fardados de, naturalizando a ditadura e psicologizando o cotidiano, responsabilizar os núcleos familiares pela dissidência e “desajuste” dos jovens militantes.
O ensaio de Cecília faz parte do seu trabalho publicado no final de 1995 em livro, Os Guardiões da Ordem, onde, partindo do correto entendimento da não neutralidade das ciências e das técnicas, mostra como os saberes e práticas “psi” daqueles anos cumpriram o papel de aliados do regime militar. Os “Guardiões de Veste” são os psicanalistas e psicólogos.
Com Cecília e Luci, podemos compreender cada vez melhor as práticas “invisíveis” mas de ação cotidiana da dominação burguesa durante aquele período. A cada dia, assim, vamos montando o quebra-cabeças dos “Anos de Chumbo”. Um quebra-cabeças cuja única possibilidade de conclusão é a delineamento dos traços da sutil – ma non troppo – dominação atual. (AF)
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Clarice Herzog
Eu queria provar que o Vlado tinha sido assassinado
Já se passaram 20 anos do assassinato de Vladimir Herzog, como você vê tudo isso agora?
Penso nos acontecimentos não do ponto de vista político, mas do ponto de vista de uma pessoa que perdeu o marido, alguém que perdeu uma pessoa muito querida, e que, apesar dos 20 anos, a ausência continua sendo sentida. É uma ausência que não se preenche. Minha vida mudou, as crianças cresceram, eu casei, passei por muitas coisas, mas quando chega nessa época eu fico extremamente irritada, porque é uma dor que não passa.
Todos temos grandes amigos e sempre há uma morte mais próxima, que sintetiza todas as outras barbaridades que aconteceram naquele tempo. Como o Vlado encarava a vida?
Acho que o Vlado tinha várias particularidades. Tinha um sentimento de comprometimento com a vida muito grande e uma lealdade muito grande com as pessoas, muito despojado, inclusive em relação a si próprio. Acho que foi esse comprometimento que o levou à morte. Participava do Partido Comunista e tinha um projeto na TV Cultura, portanto, responsabilidades com as pessoas que estavam lá e ele tinha que manter essas atividades até fazer uma passagem adequada. Não podia cair naquele momento, porque significava acabar com um trabalho que estava sendo construído. O Vlado era muito verdadeiro nesse sentido. Eu tinha uma confiança incrível nele e ele não era exatamente político. Um político negocia, às vezes tem que trair e ele não fazia isso. A relação dele com a vida era de compromisso realmente, um cara extremamente leal.
E os filhos, como eles cresceram? E a relação deles com essa história?
Eles tiveram reações totalmente diferentes. Ivo é uma pessoa que tem uma personalidade muito controladora, ele quer participar de tudo. E o André, ao contrário, se protegeu. Só quando ficou maior, adolescente com 15 anos, um jovem-adulto, começou a participar mais. Depois da morte do Vlado, o Ivo não saía de casa, queria saber de todos os fatos e o André sumia de casa. Mas eles conviveram bem com a história toda. Apesar de terem pouca idade – o Ivo tinha 7 anos e o André 9 -, eu contei para eles a verdadeira versão. É difícil, porque além de tudo eles convivem com o mito, mas se orgulham muito disso. Eles se apegaram a coisas do Vlado que lembram o indivíduo, não o mito – a máquina fotográfica, a vara de pescar, o telescópio, o relógio … Coisas que eles começaram a guardar com muito carinho.
A postura que você assumiu perante os fatos e a maneira como você enfrentou isso foi fundamental para eles. Como foi esse processo?
O Ivo passou muito mal, e teve que fazer terapia. Entrou num processo de somatização. Foi um baque para mim, uma coisa incrível. Ivo assumiu tudo aquilo, mas não tinha estrutura. Era uma criança e foi parar no fundo do poço, mas saiu fortalecido. E o André foi sofrer esse processo mais adiante, talvez pelo fato de ser muito parecido com o pai. Depois da morte do Vlado, passei a protegê-los ainda mais. Não que estivessem ameaçados, não podia acontecer mais nada com a gente. Agora, existe o lado emocional, o lado que você tem que trabalhar emocionalmente.
E a respeito do processo jurídico?
Logo que o Vlado faleceu queríamos abrir um processo e eu demorei um pouco para abri-lo, porque num primeiro momento havia a dificuldade de arranjar advogados. As coisas não foram assim tão fáceis. O sindicato não quis entrar com o processo, porque havia o receio de que fosse invadido. Eu tinha recebido um recado de Brasília e os advogados consultados também resolveram não entrar com o processo, caíram fora. Então, procurei outro advogado, de presos políticos. No entanto, ele simplesmente disse que eu deveria esquecer ou procurar um profissional mais jovem, pois se não conseguisse dar andamento ao processo, não teria nada a perder, e se obtivesse uma vitória, ele se projetaria nacionalmente. Falou isso e caiu fora também. Aí fui chamada pelo cardeal dom Paulo dizendo que eu não deveria ter medo de uma ação, que uma daquelas pessoas que teve contato com Vlado não conseguia dormir, estava muito incomodada em função do que tinha visto. Assim, fui com o Zuenir Ventura ao Rio de Janeiro procurar o Heleno Fragoso, que atuava na área criminal. A primeira coisa que ele me perguntou foi se eu tinha certeza de que o Vlado não havia se suicidado, porque o Fragoso tinha um afastamento muito maior dos fatos. A mobilização em torno da morte do Vlado foi muito mais forte em São Paulo. Os próprios jornalistas e vários setores da sociedade civil sentiram que isso podia acontecer com eles. Foi muito próximo. Porque antes, só acontecia com os que estavam no Araguaia, os que estavam na luta armada. E de repente aconteceu também com um professor da faculdade, um diretor de jornalismo, com endereço conhecido, passaporte … Então, todos se sentiram muito ameaçados. O Fragoso disse que era um processo difícil e perguntou se eu queria mesmo levar adiante o caso. Eu disse que sim e ele me passou uma procuração para assinar.
Na verdade, foi o primeiro processo desse tipo…
Foi. Inclusive era muito criticado por ser legalista. Mas o advogado deixou muito claro que na área criminal a gente não ia conseguir nada, porque já haviam instalado um Inquérito Policial Militar para averiguar as causas do suicídio do jornalista Vladimir Herzog. Eu fui chamada para averiguar as causas do suicídio. Quer dizer, a farsa total. Tínhamos que fazer alguma coisa na área civil, e aí ele indicou o Sérgio Bermudes. Eu na verdade não abri um processo de indenização, foi um processo de responsabilidade, um processo eminentemente político. Eu queria provar que o Vlado tinha sido assassinado. O Exército era responsável porque ele morreu nas instalações do 2º Exército. Não quis abrir um processo de indenização porque achava que havia uma comoção popular positiva, favorável e se eu o abrisse, eventualmente corria o risco de inverter esse clima, pois iam falar – o corpo nem esfria e a viúva já vai em busca do ouro. Outro motivo, que hoje eu acho bobagem, mas que também pesou, é o fato de ser um dinheiro manchado de sangue que eu não queria. Durante o processo: até sair a sentença, os jornalistas foram muito solidários. No entanto, houve um vazio na imprensa. Só em 31 de outubro de 1978, três anos depois, quando o processo terminou, houve uma grande repercussão, com todos os depoimentos de jornalistas torturados, antes e depois do Vlado. Estávamos achando que ia ser uma sentença favorável, porque o juiz estava levando aquilo com muita ética. O processo continuou depois em outras instâncias, o que é normal, por causa de questões burocráticas. Eu perdi na primeira vez, mas na segunda ganhei. Isso rolou mais 7, 8 anos. Agora, o que eu acho bonito é que de certa forma houve um resgate da justiça, da credibilidade. Quando recebi a sentença, fui agradecer a dom Paulo, que realmente foi uma figura importantíssima.
E qual foi o papel dele?
Eu me senti fortalecida com a presença dele, porque dom Paulo foi ao velório do Vlado e assumiu publicamente um papel de denúncia. No culto ecumênico foi de uma clareza impressionante. As tragédias das nossas vidas são como divisores de água. Não sou religiosa, mas de repente estava mais perto da Igreja do que qualquer outra coisa. E foi importante, assim como vários amigos. No entanto, alguns se perderam no processo. Alguns a amizade se fortaleceu, e outros desapareceram.
A sua decisão e a sua firmeza foram importantíssimas, porque depois começaram a surgir os primeiros processos nessa direção. Até então ninguém tinha tentado.
Entrei nesse processo pelo que falei do Vlado, esse compromisso com a verdade.
Foi muito impressionante também a reação da dona Zora, mãe do Vlado, desde o primeiro momento, e toda aquela carga da perseguição aos judeus, o tratamento que o Vlado teve na polícia, os telefonemas anônimos que você recebeu. Como foi para a Dona Zora?
Para dona Zora foi extremamente doloroso, porque três anos antes tinha perdido o marido e ficou muito mal. Caiu num estado de depressão, e teve que passar até por tratamento médico. É claro que ela não sabia nada do que estava acontecendo. E num sábado à tarde, fui falar com ela. Dizer que o Vlado estava morto, ou estava para ser morto. Disse apenas que ele tinha sido preso. Ela ficou desesperada … Lembro que eu tentava aliviá-la, dizendo que ele estava saindo, que estavam tentando tirá-lo da prisão e que não havia mais tortura no Brasil e ela falou – vão matar o Vlado como mataram o seu tio. Eu perdi um tio, na época do Estado Novo, preso num acontecimento histórico, no presídio da Maria Célia. Horas depois tive que voltar lá para contar o que havia acontecido. Na hora que ela me viu entendeu tudo. É impressionante, porque achei que ela ia morrer, e ao contar ela adquiriu uma grande força, creio que por toda a circunstância, pelo fato de querer proteger a gente, os netos. Quando o pai do Vlado morreu, ela ficou muito mal porque de certa forma sentiu que não tinha mais função, que havia perdido seu espaço. Com a morte do filho, ela ganhou um espaço para cuidar da gente, para cuidar dos netos. Reagiu muito bem, mas com muito sofrimento, até hoje.
Esse tipo de morte é diferente das outras. Você não tem onde colocar o seu luto.
Confesso que até ganhar o processo, eu tinha muito mais energia do que tenho agora. Até porque queria ir até o fim, queria que a verdadeira história saísse nas manchetes. Fui sofrer a morte do Vlado mais tarde, pois não tive nem tempo para isso. Na época, não havia espaço nem para o sofrimento. O baque é tão grande, é um negócio impressionante, que quebra, que rompe, mas o luto mesmo fui viver muitos anos depois.
Você disse que sonhava com ele. Como eram seus sonhos?
Os sonhos que tinha com Vlado sempre eram sonhos em que ele voltava depois de muito tempo. E voltava muito abatido, às vezes com a barba por fazer. Parecia que tinha ficado todos esses anos foragido e acabava voltando. E depois que eu casei, tudo era muito complicado, porque eu estava com Gunnar, e nos meus sonhos eu tinha que abandonar tudo para voltar a viver com Vlado. E eu nunca discuti isso com Gunnar, nunca falei … Mas eu tinha que voltar com o Vlado, e cuidar dele. O Gunnar, no entanto, teve um papel muito importante nesse processo.
E de uma maneira muito positiva, tanto para você quanto para os meninos, provavelmente…
E para minha sogra. O Gunnar tem duas sogras, a minha mãe e a dona Zora, que é até mais ligada a ele pelo fato de ser só. E o Gunnar lidou muito bem com isso. Quando começamos a namorar eu fui para os Estados Unidos e para a Europa denunciar todas as injustiças na Anistia Internacional. Nessa época, havia um departamento de direitos humanos bastante atuante em Washington e eu resolvi ir para lá. Falei para Gunnar que queria ir sozinha, porque aquilo pertencia ao meu passado e ele insistiu em ir comigo, dizendo: “Não, eu estou com você, eu sou companheiro. Tanto não é do passado que você está vivendo isso hoje.” Eu era a viúva do Vlado, uma viúva conhecida, namorada do Gunnar, então era muito complicado, mas ele sempre esteve presente.
Isso também foi uma coisa muito positiva na sua postura. Você teve um namorado, casou com ele, e tocou a vida para frente, não se prendeu.
Mas não foi nada fácil. Eu só me senti à vontade, sem problemas, depois de muitos anos, quando estava saindo de um cinema de mãos dadas com o Gunnar. E já fazia anos que estávamos vivendo juntos.
Você e o Vlado tinham que idade quando ele morreu?
Ele tinha 38 e eu 34 anos.
Como foi a sua relação com o movimento de Anistia?
Uma vez veio o .?. Ferreira, que ia fazer uma campanha para a Anistia. Ele é publicitário e queria saber o que eu achava, se eu perdoava. Eu falei: “Não perdôo.” Acho que nem era uma guerra, havia uma assimetria da situação entre os dois lados. De um lado você tinha um exército. Absolutamente eu não perdôo. Eu iria em frente com os familiares dos desaparecidos. Eu iria em frente para apurar até o último, apurar como morreu, onde está. Eu não parava. É muito difícil parar.
Mas fica o sentido de uma pessoa digna, que ele foi, que você foi e é.
Fica, porque ele foi uma pessoa extremamente digna. Às vezes eu me olhava no espelho e não sabia quem eu era. Você é personagem, mas também é espectadora dos fatos. É uma coisa esquizofrênica. Você tem dois papéis. Eu fiquei sozinha, a minha renda familiar caiu de um dia para outro. Nunca me ofereceram um tostão. A primeira vez que tive consciência disso foi quando eu estava na Anistia Internacional e me perguntaram se eu tinha alguma dificuldade financeira, porque quem faz política, é óbvio, tem dificuldade financeira. Agora, não é um peso. Lembro que quando o Vlado era vivo às vezes eu brigava, porque ele não dirigia automóvel e eu tinha que levar os filhos para a escola, para a terapia. Trabalhava o dia todo, ia para as reuniões de pais, fazia tudo e reclamava que ele não dirigia. Quando ele morreu, continuei fazendo isso sem peso, porque o ser humano tem uma grande capacidade de se reestruturar e resolver as coisas. Você encontra forças não sei de onde. Eu lembro que estava em casa e pensava em nunca mais ficar sozinha. Mas não tinha o direito de fazer isso, era uma sacanagem com os meus filhos. Não tinha como não ficar sozinha, porque eu não podia proibir meus filhos de sair. Mesmo com todas as dificuldades procurei preservá-los, mantendo a escola, a terapia, mexendo o mínimo possível com a vida deles. Era o que eu podia fazer, outras coisas não dava mais…
Falando sobre as dificuldades, você não acha que quando as pessoas são muito fortes, a força delas é cobrada o tempo todo?
Eu concordo. Algumas pessoas chegaram até a me falar que não se aproximavam de mim porque eu não precisava de nada, que eu não mostrava que precisava, coisas desse tipo. Agora teve uma pessoa, que nem era muito amiga, e passou a ir uma ou duas vezes por semana em casa para jantar, jogar baralho. Ela gostava de um conhaquinho e eu tinha sempre um conhaque para ela. Tem pessoas que são capazes de enxergar, e outras já não.
E a vida daqui pra frente. Agora que os filhos já estão grandes?
Acho que daqui pra frente eu tenho que aproveitar o máximo. A gente tem tanta coisa para fazer, eu fico impressionada. Tantos livros para ler. Eu ainda sou daquela geração da leitura. Tanta coisa para fazer… Estar mais próxima dos amigos, com as pessoas que gosto. A idade é um negócio impressionante, o tempo passa, as pessoas envelhecem, e a gente tem pouco tempo … A premência do tempo. Eu não tenho grandes interesses. As pessoas têm tantos hobbies e eu não faço nada dessas coisas. Eu gosto de ir para o sítio, gosto de mexer em terra, ler e tomar sol.
Alipio Freire é editor de T&D.
Clarice Herzog nunca se calou na luta por justiça. depois do jornalista Vladimir Herzog, seu marido e pai de seus filhos, assassinado em outubro de 1975 no doi-codi. Clarice esteve junto à pessoas como Dom Paulo Evaristo Arns, cardeal arcebispo de São Paulo, incansável na denúncia de tortura.
As imagens 3 e 4 são do acervo pessoal de Alipio Freire.