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Foto de Hélio Campos Mello do Livro Máquinas Paradas Fotógrafos em Ação. CONFIRA

Jornais para trabalhadores

“Como dirigente da Ala Vermelha (dissidência do PCdoB) na segunda metade dos anos 1970, ele tinha a função de assistir, orientar e participar da implementação de políticas da organização. Tanto ele como outros integrantes remanescentes da Ala Vermelha haviam redefinido as metas de atuação durante o período de prisão a que foram submetidos por causa da opção pela resistência armada à ditadura militar. À medida que deixavam a prisão política (meados dos anos 1970), passaram a executar a tarefa prioritária de se aproximar e se juntar aos trabalhadores. Não foi aleatória a escolha da região do ABC para instalação do jornal. A intenção, dentro da política da Ala Vermelha, era atingir trabalhadores dos setores de ponta da economia, como a indústria metalúrgica e automobilística, com contradições sociais e exploração do trabalho mais acirradas.

Num trabalho de “formiguinha”, o jornal ganhou credibilidade e reconhecimento junto ao movimento sindical, constituindo um canal de expressão do sindicalismo combativo, impulsionado pelas lideranças dos metalúrgicos na região do ABC. Ao dar voz aos trabalhadores e combatendo o “peleguismo” impregnado no sindicalismo, o jornalismo praticado pela equipe do ABCD Jornal estimulou inclusive transformações profundas na comunicação praticada pelas próprias entidades sindicais. Tanto Antônio Marcello, Julio de Grammont e como o próprio Alipio Freire – os três já falecidos – trabalharam no setor de imprensa do Sindicato dos Metalúrgicos.

Já em 1976, militantes ligados à Ala Vermelha passaram a desenvolver outras publicações como o Repórter de Guarulhos, Jornal da Vila, Jornal da Periferia, Repórter de Campinas. Alipio foi peça fundamental na articulação dessas equipes e dos trabalhos, ao mesmo tempo em que utilizava sua capacidade de articulação com outros setores políticos, jurídicos, sindicais e artísticos para obter apoio e amplificação das experiências.

Na época das grandes greves, no final da década de 1970, a identificação e inserção do ABCD Jornal era de tal proporção que levou a publicação à condição de porta-voz do comando de greve. Em 1979, na primeira intervenção do governo militar no, então, Sindicato dos Metalúrgicos de SBC e Diadema, o ABCD jornal teve tiragens inimagináveis para a imprensa popular na época, chegando a atingir mais de 100 mil exemplares.” (Trecho do texto “ABCD Jornal: primeira publicação popular
a defender, na ditadura
,
a criação do PT” de Robinson Sasaki) LEIA+

Vídeos – Alipio fala sobre o papel dos jornais dos movimentos sindicais

ABCD Jornal – da luta armada a imprensa para os trabalhadores 
Alipio Freire – ABCD Jornal | Opera Mundi

No final da década de 1970, a região do ABC Paulista e os sindicatos que ali estavam atraíam diversos tipos de militantes contra a ditadura civil-militar brasileira. Muitas organizações de luta armada já haviam revisto seus princípios e decidido trabalhar em outras frentes. Uma delas, a Ala Vermelha, havia sofrido muitas quedas desde o final de 1960 e, quando muitos de seus quadros saíram da prisão anos depois, a organização decidiu que era o momento de se aproximar da classe trabalhadora a partir da indústria de ponta, das grandes montadoras do ABC.

Informação e Liberdade | Roteiro, direção e edição Ennio Brauns

Vídeo sobre a cobertura jornalística das greves metalúrgicas, no final da década de 1970. Com depoimentos de Alípio Freire, Jesus Carlos e Juca Martins, acompanhados das fotos do livro Máquinas Paradas Fotógrafos em Ação, publicado pela Fundação Perseu Abramo e AR Produções Musicais, em junho de 2017.

Resistir é Preciso | Instituto Vladimir Herzog
A intensa atividade da imprensa – Alípio Freire

O jornalista Alipio Freire descreve o modo nada burocrático com que a Ala Vermelha conseguia recursos para fazer seus jornais clandestinos, Luta Proletária e Unidade Operária. E fala sobre os jornais de massa criados pela organização, entre eles o ABCD, que chegou a rodar 100 mil exemplares.