PERFIS CRUZADOS
Trajetórias e militâncias Políticas no Brasil
Organizadora: Beatriz Kushnir
2002, 260 páginas | Editora: Imago
Este livro revela mil e uma facetas das lutas políticas no período da mais recente ditadura civil-militar no Brasil, fazendo um paralelo pontual com aquela ocorrida nos anos de 1937 a 1945. O leitor irá perceber a diversidade do conceito de participação política nas múltiplas histórias. Além de difundir narrativas, sublinhar biografias e, principalmente, registrar acontecimentos, os artigos deste livro apontam para a realidade de que nem todos os que sofreram a brutalidade do Estado autoritário tinham vínculos com a luta armada. A censura, um dos mais abrangentes tentáculos da repressão, retirou das pessoas o direito de conhecer o mundo em que viviam. Os dez textos permitirão que se faça um cruzamento de trajetórias, construídas não só por ex-militantes, como por jornalistas, sociólogos e historiadores, entrelaçando os Perfis aqui desenhados.
OS DOIS MARUJOS por Alipio Freire
A João Cândido, O Almirante Negro, e seus companheiros que, em 1910, levantaram a Armada brasileira contra a Lei da Chibata.
Aos meus amigos e companheiros de cela Otacílio e Cláudio -marujos que, nos anos 1960, se levantaram contra a ditadura e por um Brasil socialista.
Aos jovens marinheiros dos dias atuais.
0.
Às vésperas do Golpe civil-militar de 1964, durante o Governo do presidente João Goulart – o Jango, o Brasil mergulhou num período de grande ebulição política. Havia um projeto de reformas populares que apontavam para um desenvolvimento com distribuição de renda: política salarial tendo como referência uma cesta básica capaz de satisfazer necessidades reais de uma família; reforma agrária; limitação das remessas de lucros pelas empresas estrangeiras; desenvolvimento das indústrias de capital nacional; taxação das grandes fortunas e patrimônios; reform da educação com a ga ntia de ensino público e gratuito em todos os níveis; desenvolvimento da pesquisa e da tecnologia nacionais, e conseqüente contenção do pagamento de royalties ao capital internacional; controle nacional/estatal dos setores estratégicos da economia; reforma administrativa do Estado e uma série de outras medidas que configuravam as chamadas Reformas de Base. Teoricamente, em termos econômicos, esse projeto pode rigorosamente ser definido como um projeto de desenvolvimento capitalista, com distribuição de renda, capaz de gerar um mercado interno, autônomo no que diz respeito ao grande capital internacional.
No entanto, seria uma visão economicista, estática e estreita, imaginar que a implantação dessas reformas não provocaria uma nova dinâmica na luta de classes, na política, requalificando-a.
Sua possibilidade enquanto programa do então Governo revelava por si mesma uma mudança interna na correlação de forças das classes e, externamente, a busca de uma nova inserção daquele Brasil num cenário internacional onde emergiam novos estados-nações resultantes do processo de descolonização de África e Ásia, mas um mundo polarizado entre duas superpotências, a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas e os Estados Unidos da América, e no qual cabia ao nosso país o papel simultâneo de chasse gardée e gendarme das políticas de Washington para o Continente. O projeto em curso durante o Governo Jango era marcado por um forte viés nacionalista, com uma base nitidamente popular e fundada, sobretudo, nos sindicatos, além de outras organizações e movimentos do povo. A organicidade dos movimentos populares e seu enraizamento eram, no entanto, discutíveis, e a suposta classe possível de conduzir aquele programa – a chamada burguesia nacional progressista – era frágil em termos econômicos, pouco representativa em termos sociais, e muito pouco consistente em termos políticos para bancar o projeto.
O simples anúncio das reformas propostas levaria (como de fato levou) à radicalização de posições entre as forças populares e progressistas (operários, camponeses e seus aliados nesse projeto e que constituíam o povo), lideradas por nacionalistas, populistas, comunistas e socialistas em geral e, no outro extremo, as forças representativas das classes dominantes (o grande capital internacional e seus aliados internos, a grande burguesia no Brasil, os latifundiários, toda a elite econômica e a direita ideológica), lideradas por reacionários, conservadores e entreguistas.
Durante os meses que precederam o golpe, o País viveu seu mais forte movimento político de massas, protagonizado, sobretudo, pela classe operária, através dos sindicatos. Não se tratava de um movimento apenas reivindicatório, mas de mobilizações operárias e dos demais trabalhadores em torno de reformas políticas. De mudanças políticas. De um projeto político.
O movimento camponês seguia rumo semelhante, com as Ligas Camponesas. A ação dessas classes fundamentais em torno de um programa popular não aconteceria sem uma grande agitação de diversos outros segmentos progressistas.
A contrapartida seria (como o foi) uma grande conspiração da elite econômica, política e militar brasileira e da alta hierarquia da Igreja Católica, articulação da qual também participaram diretamente o embaixador dos Estados Unidos no Brasil, outros personagens ligados ao grande capital e Governo norte-americano, e a outras instituições políticas, militares e dos serviços de inteligência daquele país, como a CIA. Esses personagens, instituições e classes travaram uma intensa luta no plano da propaganda através dos meios de comunicação de massa (a maioria dos quais participava diretamente da conspiração, ou a ela estava aliada como coadjuvante), partindo por fim para a disputa de ruas e praças que lotaram com suas marchas “com deus e a família pela liberdade”, mobilizadas em torno da histeria anticomunista.
É assim que todo o País se convulsiona e se radicaliza.
É assim que nas próprias Forças Armadas a luta de classes irá se acirrar em torno da disputa dos projetos em jogo, levando as tropas a reivindicarem seus direitos específicos frente aos superiores hierárquicos e ao Governo – como o direito de organização independente para seus engajados -, inscrevendo tais reivindicações no programa geral de mudanças. Sem dúvida, era um contra-ataque à conspiração permanente da alta oficialidade das Forças Armadas que, juntamente e a serviço da direita civil, já ensaiava um golpe de estado desde os anos 1950, e que tudo fez para impedir a posse de Jango, vice de Jânio Quadros, quando da renúncia deste em 1961.
Nessas mobilizações políticas de militares nacionalistas e de esquerda que precederam o golpe de 1964, os marinheiros foram provavelmente aqueles que mais se destacaram e que foram mais longe. Pode-se discutir a conseqüência dessa radicalização. Não se pode, porém, negar a amplitude e a tensão de que se revestiu.
Os dois personagens de que tratamos neste texto surgiram desse momento de sonhos e radicalidade que viveu o Brasil. Sonhos e promessas interrompidos pelo golpe, acompanhado pela capitulação das principais lideranças que animavam o cenário da esquerda e das demais forças progressistas. Foram esses vôos às alturas e o desabar de perspectivas que colocaram em cena, entre milhares de jovens militantes, Otacilio e Cláudio.
1.
Seu Silva ainda não tinha 50 anos. Era um homem que, já em 1960, podia ser considerado conservador. Temente ao Informe (o onisciente, onipresente e onipotente Deus Pai) e servo da velha moral sertaneja, era respeitado no vilarejo do interior do Ceará onde vivia.
Seu Silva era honra e orgulho acima de tudo.
Muitos filhos, os mais velhos já haviam deixado a casa.
Seu Silva é o barbeiro da cidade.
2.
A lado das cirandinhas infantis, cantadas e dançadas em todo o Brasil, a Ciranda sobrevive no Nordeste, com acentuadas características diferenciais: a participação dos “Cirandeiros” – os que participam cantando e/ou dançando, e que são adultos por regra; o repertório vasto no que tange às melodias ou às letras; a presença obrigatória de um instrumental, onde o Bombo ou Zabumba é peça que não deve faltar, e que sustenta a roda ondulante dos cirandeiros, homens e mulheres que se alternam de mãos dadas; o local de sua execução, que é o terreiro na ponta de rua semi-escura, ou lugares mais afastados, sempre ao ar livre.
Ao Mestre Cirandeiro cabe o ofício de tirar as cirandas, improvisar versos, presidir a folgança.
3.
Ele é metódico. Cada instrumento de trabalho tem que estar limpo, afiado, pronto para ser usado com precisão no corte de cabelo ou na barba que faça. Conhece cada dente de sua máquina, cada ranhura no pente de osso, cada pequena nódoa no avesso do espelho, a textura de cada pelo do pincel.
Abre a navalha e admira a perfeição do fio – pensa em todas as cruéis possibilidades do aço que, por fim, recolhe ao cabo de chifre.
Arruma cada um dos petrechos.
Faz tudo meticulosamente, e meticulosamente coloca tudo em esmerada ordem.
Atravessa a porta da casa e sai para o terreiro.
Em seguida, toma o rumo do ermo da caatinga, para além dos limites do povoado.
4.
Ao soar forte do Bombo, e mais um que outro instrumento, os cirandeiros vão sendo atraídos. Dão-se as mãos, às vezes os braços, espontaneamente, e já estão girando. De meias-luas soltas no terreiro, uma grande roda vai surgindo, num balanço de onda contagiante. E todo mundo dança, pois Ciranda não é bailado fechado de um grupo, de alguns pares. É de todos, indistintamente.
5.
Sobretudo no Nordeste, quando uma família pobre tinha muitos filhos, buscava saída encaminhando um ou vários deles para um seminário católico e/ou para as forças armadas – especialmente Exército e Marinha.
Nessas instituições religiosas ou militares, as crianças – principalmente os meninos – teriam casa, comida, educação e, sobretudo, aprenderiam ofício ou profissão, coisas essenciais que suas famílias não poderiam custear. Ao mesmo tempo, eram bocas a menos a serem sustentadas. Estratégias de sobrevivência da família, faziam-se também desejo e vontade das crianças e passavam a ter o nome de vocação. Vocação entendida enquanto inclinação inata a alguém para algo.
No caso das meninas, as tarefas da casa – cuidar dos irmãos mais novos, lavar, cozinhar etc. – e a perspectiva de um casamento definiam outras vocações. No extremo, seriam domésticas nas casas das fazendas ou das cidades. No limite, prostitutas: desvio assimilável numa dinâmica de reprodução da organização social baseada numa estrutura familiar patriarcal.
Trilhando os mais diversos caminhos, muitos desses meninos originários das classes mais pobres e que foram para os seminários ou forças armadas vêm se engajando nas lutas do povo. Dos que passaram a ter uma militância às vésperas do golpe de 64, vários se tornaram socialistas, comunistas ou cristãos de esquerda.
Isto é apenas um registro e não nos diz de uma tradição ou natureza democrática das forças armadas ou da Igreja Católica. Aliás, aqueles que se rebelaram no pós-64 o fizeram apesar dessas instituições.
6.
O homem anda pela caatinga como se procurasse gado extraviado. Olha para o chão. De vez em quando pára e levanta a vista para o horizonte.
Decidiu fazer essa caminhada desde a véspera, quando o delegado foi à sua casa levar um jornal publicado no sul. Mas era noite, e transferiu suas providências para o dia seguinte. Ele conhecia bem toda a região e seguia em busca de uma árvore. Uma determinada árvore.
7.
A zabumba, as caixas, o ganzá e o saxofone deram a ordem para começar a festa. O Mestre já está no meio do terreiro puxando o baile. Cleide engata na primeira meia-lua que passa.
A roda se fecha. A moça canta e dança, de braços dados com os cirandeiros.
Sentado do lado de fora, o ex-marinheiro – clandestino desde o golpe de 1964 – registra tudo. Observa de cara fechada. Não lhe agrada a música, o canto, o bailado.
Cleide o provoca com versos da ciranda. Quem sabe, ainda conseguiria conquistá-lo para a dança.
O mais certo é que voltassem a brigar quando chegassem em casa.
8.
O sertanejo por fim divisa a árvore. Está a uns oitenta metros. Pára e olha de frente como se conferisse tronco, galhos. Retoma a caminhada, sem mudar o passo, o rosto contraído. Vai em linha reta, atropelando as pedras soltas e a vegetação baixa. Agora estaca: estão frente a frente. O homem e a árvore.
9.
A prisão de militantes chamava-se queda. Cair significava ser preso. Caíam informações, coisas, aparelhos, casas, armas, gráficas, documentos e, sobretudo, pessoas.
As quedas resultavam sempre de informações: denúncias de vizinhos ou conhecidos, agentes infiltrados, documentos encontrados nos aparelhos, ou informações obtidas de presos através de violentas torturas.
De posse das informações, uma equipe policial, militar, pára-militar ou mista preparava a campana, o cerco à casa, ao local de trabalho ou ao logradouro público por onde costumava passar determinada pessoa, ou onde a repressão sabia que haveria um ponto – encontro clandestino marcado em locais públicos.
Desde o ato da prisão, o preso ou a presa já começava a apanhar. E apanhar pesado.
Desde o Ato Institucional número 5 (13.12.1968) até meados de 1969, a regra em São Paulo era o preso/a ser levado inicialmente para o quartel da Polícia do Exército.
Aí, os primeiros interrogatórios, sempre sob as mais violentas torturas, que se prolongavam na Praça General Osório, onde funcionaram sucessivamente o Departamento e a Delegacia de Ordem Política e Social (Dops e Deops).
Era no quartel e no Dops onde muitos dos presos/as eram também interrogados diretamente pelos Serviços de Inteligência do Exército, da Marinha e da Aeronáutica.
No Dops, presos e presas faziam sua segunda descida aos infernos, que concluía com depoimento em cartório. Esse depoimento era enviado à Justiça Militar que, aceitando a denúncia, fazia com que o preso/a passasse a ser reconhecido publicamente e considerado sub judice. Momento importante pois, desde sua prisão – que juridicamente configura-se como seqüestro, pois feita sem qualquer ordem judicial – até a sua denúncia pública, o preso/a não existia, era considerado desaparecido. E foi exatamente neste meio tempo – depois do sequestro e antes da denúncia pública – que muitos desapareceram para sempre.
10.
Naquele fim de semana devia acontecer uma grande ciranda na ilha de Itamaracá. Cleide se prepara para a festa. Seu namorado, o ex-marinheiro com quem vive num pequeno apartamento, cria problemas.
A moça deixou várias vezes de ir aos bailes por causa do marinheiro. Desta vez, vai sozinha. Volta de madrugada. Brigam e se separam. Voltam e brigam. Muitas vezes.
11.
1969. O ano apenas começava.
Em São Paulo, nas celas do quartel da Polícia do Exército, um punhado de homens e mulheres estropiados por semanas de torturas.
A autoridade militar aproxima-se da grade de uma das celas e grita um nome.
O preso se levanta e se dirige à porta do cubículo. É um jovem de uns 24 anos, estatura mediana, moreno claro, físico atlético, cabelos pretos cortados curtos. Imagina que será levado mais uma vez para interrogatórios. O ódio que a repressão lhe dedica é muito especial: além de “subversivo”, “comunista”, “terrorista”, pesa-lhe a condição de marinheiro: “Desertor das Forças Armadas!”
Em poucos passos ele chega à grade.
O militar, com um jornal dobrado em uma das mãos, confirma:
– O senhor é o marinheiro Otacílio?
– Sim, sou eu – responde.
O militar entrega o jornal e se retira.
12.
Otacílio – o Marujo, abre o jornal. Sobre a foto de seu pai, a manchete: “Envergonhado, pai de terrorista se suicida”.
Não precisa ler a notícia toda.
13.
Mal escrito, o jornal do interior do Ceará sumariava mais ou menos o seguinte:
Depois de informado pelo delegado dr. Fulano de Tal sobre o envolvimento de seu filho, o marinheiro Otacilio Pereira da Silva, em atos terroristas cometidos pelo grupo subversivo Vanguarda Popular Revolucionária, VPR, entre os quais assaltos a bancos, quartéis e assassinatos, o barbeiro Silva, envergonhado, suicidou-se, enforcando-se numa árvore próxima à cidade onde vivia…
14.
Desde a notícia do suicídio do pai, Marujo passou a ter pesadelos que se alternavam com fortes dores de cabeça.
Concluídos os interrogatórios no quartel e no Dops, foi transferido para a cela 5 do Pavilhão 1 da Ala Masculina do Presídio Tiradentes. Depois, escolheu morar na cela 3.
Ali, com sua inseparável toalha de rosto listrada sobre o ombro, integrou-se à vida e às tarefas do coletivo. Para isto, fazia dupla com um jornalista da Ala Vermelha, Severino – o Biu, de 24 anos. “Duplas do dia” era o modo como as celas se organizavam para cuidar de sua alimentação e limpeza. As duplas se revezavam a cada dia da semana.
15.
Depois do episódio da papisa Joana, os dirigentes do Vaticano houveram por bem introduzir novo ritual na escolha do seu Pontífice Máximo. Assim, depois de indicado o sucessor de São Pedro, antes de anunciá-lo, o colégio de cardeais passaria a desfilar sob a Cadeira Gestatória de assento vazado, e sobre a qual sentava-se o futuro papa, paramentado, mas desprovido de suas roupas íntimas. Nessas circunstâncias, portanto, os testículos de Sua Santidade ficavam pendurados, expostos embusteira. Cada Príncipe da Igreja, ao passar sob o trono, deveria tocá-los com uma das mãos para prova de que não se tratava de mais uma certificar-se não apenas visualmente de que eram verdadeiros. Depois do toque comprobatório, então, cada eminência mitrada estava apta para enunciar seu veredicto: “Machorum est”.
Esta é a história que o Marujo dizia ter lido.
Por isto, quando algum preso manifestava qualquer acesso de revolucionarismo extemporâneo ou outro destempero, Otacílio sorria irônico, levava uma das mãos ao ar como se tocasse em algo invisível e vaticinava: “Machorum est”.
Ria, formando pequenas covas no rosto, ganhava o riso cúmplice de companheiros de cela – particularmente do químico das Faln, Mauro Rosa Mosca – e muitas vezes a brincadeira acabava surtindo um bom resultado: fazia com que o exaltado tomasse consciência da dimensão do que estava dizendo ou propondo, e evitava que se criasse polêmica em torno de uma tolice.
16.
A noite se torna pequena para a animação de uma Ciranda. Uma vez iniciada, não se sabe quando termina.
Pela madrugada adentro ainda se desfia o rosário de melodias, cantando coisas do mar, coisas da terra, coisas do amor.
17.
1970. A única vez que Otacílio perdeu a paciência pra valer foi durante as discussões sobre que atitude o Presídio deveria adotar com relação à Copa do Mundo daquele ano. Na ocasião, um número significativo de presos pretendia que não se assistisse aos jogos pela tv: combater a Pátria em Chuteiras era combater a Pátria em Coturnos. Logo, Abaixo a Ditadura! Havia ainda a variante dos que aceitavam que se acompanhasse os jogos, mas que propunham que se torcesse contra os auriverdes e a favor das equipes de países socialistas. Marujo considerava a indignação compreensível, levando em conta que se vivia o Governo Médici que investira tudo naquele tricampeonato visando aos dividendos políticos – tendo inclusive tentado intervir diretamente na escalação da seleção. Para ele, porém, transformar isto em questão de ferrenho debate era, no mínimo, excessivo. De qualquer modo, assistir ou não a Copa, torcer ou não pela equipe brasileira, acabou por se tornar um problema a ser decidido pelo coletivo do presídio, incluídos os dois pavilhões masculinos e a ala feminina, conhecida como a Torre das Donzelas. No dia que a cela 3 se reuniu formalmente para deliberar sobre o assunto, Otacílio explodiu: estava todo mundo ficando louco. Esperneou e ameaçou: mesmo que ninguém assistisse, ele o faria sozinho, pois não estava a fim de ser mandado, e com razão, para o Manico – o Manicômio Judicial.
Embora concordasse com Otacílio, o químico Mosca não se conteve. Do alto do beliche onde estava sentado ao lado de Flávio Poltronieri – o Loirão (Faln), ergueu o braço direito, acariciou o ar com o côncavo da mão e contratacou: – “Marujorum est!”.
Gargalhada geral, à qual acabou por se juntar o próprio Marujo, depois de ensaiar alguns resmungos. O coletivo da cela 3 e em seguida o do presídio decidiram por ampla maioria assistir os jogos. Cada um que torcesse por quem bem entendesse. A cada partida, Otacílio se divertia provocando os que haviam se posicionado contra assistir a Copa, e os que antes pretenderam que se torcesse contra o Brasil. Segundo ele, esses e aqueles haviam se tornado os mais aficionados participantes e fiéis torcedores da equipe canarinho. Dizia isto contraindo a boca numa expressão suposta e caricatamente séria e grave, ao mesmo tempo em que, apenas com os olhos, ria com forte acento de malandragem.
18.
Depois da Copa, no segundo semestre de 1970, cerca de 40 presos políticos são transferidos do Presídio Tiradentes para a Casa de Detenção do Carandiru. Vão de castigo, para celas individuais e condições carcerárias em tudo piores. A cela 3 do Pavilhão 1 contribui com dois nomes para a lista de punidos: Marujo e Biu.
19.
Não há estações próprias para a Ciranda.
Dança-se durante todo o ano.
Aos sábados e domingos preferencialmente.
20.
Ao longo do ano de 1970, revolucionários brasileiros sequestram três diplomatas: o cônsul do Japão em São Paulo, Nobuo Okuchi; o embaixador da República Federal da Alemanha, Ehrenfried von Holleben, e o embaixador da Suíça, Giovanni Enrico Bücher. Eles são soltos em troca da libertação de presos políticos.
21.
Marujo está na lista dos presos a serem trocados pelo embaixador da Suíça.
No dia da partida, 23 de janeiro de 1971, ganha do seu companheiro de “dupla” do período do Tiradentes uma camisa de flanela xadrez, e deixa para o amigo sua inseparável toalha de rosto de listras coloridas.
Marujo despede-se e parte.
22.
Numa noite qualquer daquele início de 1971, Cleide dança sua última ciranda. Não percebe, porém, que se despede.
Não imagina que também está de partida.
23.
Poucos meses depois, os presos políticos em São Paulo que estavam Carandiru são levados de volta para o Tiradentes, retornando quase todos a suas celas de origem.
Biu está outra vez na cela 3 do pavilhão 1. Marujo está no Chile. Banido.
Antigos e novos presos recompunham aquele coletivo.
24.
É madrugada.
O Taurus calibre 38 dispara a primeira vez.
Silêncio aterrador.
O Taurus calibre 38 dispara a segunda vez.
É madrugada.
25.
“Só vos peço uma coisa: se sobreviverdes a esta época, não vos esqueçais! Não vos esqueçais nem dos bons, nem dos maus. Juntai com paciência as testemunhas daqueles que tombaram por eles e por vós.
Um belo dia, hoje será o passado, e falarão numa grande época e nos heróis anônimos que criaram a História.
Gostaria que todo mundo soubesse que não há heróis anônimos. Eles eram pessoas, e tinham nomes, tinham rostos, desejos e esperanças, e a dor do último entre os últimos não era menor que a dor do primeiro, cujo nome há de ficar. Queria que vos fossem tão próximos como pessoas que tivésseis conhecido, como membros da vossa família, como vós mesmos”.
26.
1971, segundo semestre. A cela 3 estava lá, com seus beliches, sua cozinha improvisada, seu banheiro.
Sobretudo com seus presos: Ala Vermelha (AV), Forças Armadas de Libertação Nacional (Faln), Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), Vanguarda Armada Revolucionária Palmares (Var-Pal-mares), Partido Operário Comunista (Poc), Partido Operário Revolucionário Trotskista (Port), Resistência Democrática (Rede).
Era essa a composição naquele início de noite, quando o carcereiro informou que havia um novo detento preenchendo ficha e que era preciso definir para qual xadrez seria levado. A cela 3 era das poucas que tinham vaga. Seu coletivo se reuniu e discutiu. Decidiu acolher o novo preso.
27.
Ele entrou. Alto, magro, barba por fazer, cabelos cheios, pretos – já uma grande quantidade de fios brancos – e encaracolados. Pomo-de-Adão proeminente e nariz bem desenhado. Ombros estreitos e peito cavo, o tronco vergava-se para a frente, em arco.
Seus olhos impressionavam. Negros, febris – brilho encravado num rosto alongado, de pele pálida, amarelada, baça e precocemente envelhecida para seus 26 anos.
O carcereiro bate a grade e gira a chave, trancando a cela 3. O novo preso começa seu discurso.
28.
Meu nome é Cláudio de Souza Ribeiro. Sou marinheiro cassado e clandestino desde 1964. Vocês já devem ter lido nos jornais sobre minha história. Devem ter tido dúvidas. Mas desta vez a imprensa burguesa não mentiu:
Eu assassinei minha companheira.
Não tive coragem de me matar, e me entreguei à polícia.
Esperava que eles fizessem o serviço, que me matassem. Mas deixar vivo foi a melhor tortura que encontraram para o meu caso.
Me transferiram para cá porque eu tenho uns processos aqui em São Paulo.
Mas eu sei o que quero, e não vou ficar aqui por muito tempo. Não tenho outra saída senão morrer. Mas não se preocupem, não vou prejudicar ninguém, nenhum de vocês.
Eu tinha ciúme. Porque nós temos uma formação machista. Somos revolucionários, somos corajosos, queremos mudar o mundo, mas somos machistas. Não rompemos com isto porque somos inseguros. Deste modo, nem admitimos que temos ciúme. E também não rompemos com nossas inseguranças.
Minha companheira não fez nada de errado.
Morávamos na clandestinidade, no Recife. Ela era jovem e bonita. Cheia de vida. Gostava de cantar e dançar. De se divertir. Queria que eu fosse junto. Que dançasse, que fosse seu companheiro de ciranda.
Eu preferia dizer que era revolucionário e que não poderia fazer essas coisas. Apelei até para o argumento que isto de ciranda e dança era um liberalismo, que criava um problema de segurança, pois eu estava clandestino.
Esse argumento poderia ser verdade. Mas era mentira. Na verdade eu tinha medo.
Homem que é homem não gosta de dançar – ou gosta?
Quem aqui não tem medo dessa coisa de dançar, de ser veado? Quem?
Todo mundo tem. Porque a gente foi educado para ser macho, e macho não é de dança. Depois, a gente vai se fazendo revolucionário, mas um revolucionário que não rompe com essa coisa de ser macho, uma militância que reforça esse valor de ser macho. E então revolucionário também não pode dançar, não pode gostar de ir a festas, de cantar, de participar de ciranda. E, portanto, sua mulher também não pode gostar.
Não pode ir a baile. Se for, se gostar, ela também não é revolucionária.
E que merda de revolucionário é este? Que merda de revolucionário é este que assassina a companheira? Que tipo de revolucionário são vocês?
Também preferia dizer que era revolucionário e que não tinha ciúmes. E na verdade eu tinha ciúme sim. E também achava que eu não podia dançar na ciranda porque não era coisa de homem. Podiam achar que eu era veado. Mas eu tinha inveja dos que dançavam e ciúme dos que olhavam minha companheira dançar.
Tinha medo de ser corno.
Não tem justificativa para o que fiz. Não tem desculpa. Um revolucionário não se comporta assim. Um homem não se comporta assim.
Ela tentou várias vezes me convencer de nos afastarmos da militância, que o rumo das coisas estava errado. Propôs que deixássemos o país e fôssemos viver outra vida pois estávamos brigando demais. Insistia. E isto também virava motivo de briga.
Não estou contando isto para me justificar.
Estou contando isto para que vocês, que querem fazer uma revolução e mudar o mundo, pensem a situação de vocês mesmos. Que pensem em que merda vão fazer logo ali adiante.
Para sermos revolucionários temos que saber de nossas limitações. Somos inseguros porque não nos achamos o suficiente macho, o suficientemente corajoso, e tudo o mais que se convencionou dizer serem virtudes masculinas ou manifestações dessas virtudes.
Qual de vocês aqui nunca se sentiu inseguro porque tinha o pau pequeno? Qual?
Nós somos criados assim. Pau pequeno é pouca virilidade, pouca macheza. Temos que ter o pau grande.
Não basta sermos machos. Temos que ser rivais, concorrer e ganhar em macheza de todos os machos. Cada um tem que ser o mais macho. Cada um tem que ter o pau maior. Cada um tem que ter comido mais mulheres.
Sim, porque para o macho, é ele quem escolhe a mulher e come. O macho pensa que nunca é escolhido, nunca é comido – porque na cabeça do macho, mulher é assim.
Mas, para sermos revolucionários temos que mudar isto na gente. Não tem revolução se a gente não mudar também isto. Desse jeito a gente só vai fazer cagada.
Foi assim, foi tudo isto que me levou a cometer esse crime brutal. Ela não tinha culpa nenhuma. Não fez nada de errado. Mesmo que não me quisesse mais, que preferisse outro, não estaria fazendo nada de mau. Nada de errado. Era seu direito de escolha, mesmo que estivesse indo para a cama com outro. Era seu direito também não querer continuar naquele tipo de militância.
E quero que vocês saibam. Naquela madrugada, ela estava dormindo ao meu lado, e eu disparei um tiro no seu coração, no peito esquerdo. Não satisfeito com essa brutalidade, peguei a arma e lhe dei um segundo tiro no seio direito. Na hora não sabia exatamente por que aquele segundo tiro. Ódio. Violência. Estupidez. Crueldade. Covardia. Ela estava dormindo e eu disparei no seu peito esquerdo, no coração. Ela já estava morta e eu ainda atirei uma segunda vez, no peito direito.
Fui capaz de toda essa crueldade contra ela mas, como todo macho, na hora de atirar em mim mesmo, de me suicidar, não tive coragem.
Só depois eu entendi por que disparei um tiro em cada seio.
Nossos gestos sempre têm algo de planejado. De coerente. Mesmo que não sejam planejados conscientemente, eles têm uma lógica. Uma racionalidade. Eles nunca acontecem por acaso. Nosso inconsciente é muito forte. Ele sempre conspira e age.
Temos que estar atentos para o que acumulamos em nosso inconsciente.
Eu sempre li que vários povos antigos costumavam decepar os dois seios das mulheres adúlteras. A primeira vez que li sobre isto eu era criança, foi numa revista de história em quadrinhos. Ficou sempre no meu inconsciente, e de vez em quando passeava pela minha cabeça. Era recorrente.
Mas, o que é uma mulher adúltera?
E um corno, o que é um corno?
Outros povos – li também – costumavam marcar a fogo, com ferro em brasa, os seios das prostitutas.
Isto sempre me perseguiu.
Foi por isto certamente que tive que ferir, mutilar os dois seios de minha companheira. Não era suficiente matar. Era necessário estigmatizar. Então, depois de atirar no coração, era preciso marcar o seio direito. E eu atirei a segunda vez, para marcar a fogo a adúltera, a prostituta.
Por que? Porque tinha ciúmes. Porque ser macho é assim. É ser dono, proprietário de uma ou muitas mulheres. E, ou a gente é isto, ou é corno, ou é veado.
E porque tem toda essa história sobre as adúlteras e as prostitutas.
Eu fui criado por minha avó, no Recife. Foi ela que viu que eu tinha que ir para a Marinha, para estudar e ser gente, porque éramos muito pobres. Minha mãe não podia me criar, e sabem por que?
Porque minha mãe era prostituta.
Prostituta de pegar homem.
Prostituta da zona.
Alguém aqui tem mãe prostituta?
Quem aqui tem mãe que precisou se prostituir?
Minha mãe era muito bonita. Mas era prostituta.
Aparecia às vezes no final de semana para me ver. Sempre nos sábados ou domingos à tarde. Levava dinheiro, que deixava com minha avó. Dinheiro que recebia dos machos.
Eu era o filho de uma prostituta. Isto era difícil.
Ela era bonita e eu ficava imaginando como era sua vida de prostituta.
Por isto que eu sempre me interessei por essas histórias de apedrejar ou de decepar os seios das adúlteras.
De marcar os seios das prostitutas.
Quando eu atirei no seio direito da minha companheira, certamente era tudo isso que estava se manifestando.
Mas não escondo. Não tenho mais condições de viver, e vou dar um jeito nisto.
Eu sei que deve ter sido difícil para vocês me aceitarem aqui.
E não me importa o que vocês ou o resto da esquerda pensem a meu respeito. Não pedi para vir. Não pedi nada. Eles que me trouxeram. Não quero nenhuma piedade ou complacência. Vocês agora sabem que minha história é esta mesmo. E não se preocupem que, como já disse, não vou ficar aqui muito tempo. Nem aqui nem em canto nenhum.
Eu sei que muita gente neste presídio, muitos companheiros não quiseram me aceitar em suas celas.
Certamente são revolucionários, machos.
Talvez tenham razão, eu me entreguei à polícia.
Um revolucionário não deve se entregar à polícia.
Um revolucionário não deve fazer um monte de coisas.
Eu me entreguei, mas não dei nenhuma informação sobre minha militância, nem sobre nenhum companheiro. Não abri nada, não entreguei ninguém – diferentemente de muitos que estão me julgando.
Mas um revolucionário também não assassina uma companheira. Um homem não assassina sua mulher. E eu assassinei minha companheira. De forma brutal.
Neste sentido eles podem ter razão.
Fico grato a vocês por me aceitarem. Mas não quero nenhuma piedade. (…).
29.
Bem na entrada da cela, de costas para a porta do banheiro, no espaço reservado a uma cozinha improvisada, Cláudio fez seu discurso para cerca de 16 presos, com seus poucos pertences numa bolsa de nylon, de alças curtas, que trazia pendurada no ombro direito. Estava de sandálias de couro, uma calça jeans azul índigo surrada, e uma camisa de algodão de mangas curtas, de estampa miúda e em cores claras, que caía por fora das calças.
Enquanto falava, os demais presos suspendiam seus trabalhos, paravam nas posições e com as expressões as mais inusitadas, como se gestos houvessem sido surpreendidos e congelados a meio caminho de se concluírem.
Haviam jantado, estavam no horário em que os encarregados da leitura dos jornais faziam o resumo para o quando o marinheiro chegou. conjunto da cela das principais notícias do dia, enquanto alguns desenhavam ou ultimavam artesanatos, quando o marinheiro chegou.
O silêncio era absoluto. E se adensava à medida que aquele jovem ia fazendo seu discurso.
Os olhares de todos se fixavam no orador, como evitassem se cruzar.
A fala do marinheiro era uma vertigem no absoluto em busca de uma racionalidade quase impossível, criando para os ouvintes a sensação de estarem mergulhando num espaço infinito, de tempo eterno.
Um dos presos, estudante de medicina (psiquiatria), Leopoldo Nozek (Leo), engraxava uma bolsa de retalhos de couro que fazia para sua namorada, Raquel, então primeira bailarina do Teatro Municipal de São Paulo. Leo tinha por volta de 23 anos e era militante do Poc. Em determinado momento, suas mãos ficaram no ar, a esquerda segurando a bolsa, e a direita com a escova a uns 30 centímetros do objeto que deveria lustrar, o olhar detido em Cláudio. A imagem de Leo naquele instante era como uma foto de dança: o registro de um movimento meio à sua construção intencional não concluída e que nunca saberemos se chegou a se completar ou como.
Finda a fala, o silêncio e a imobilidade da cela se mantiveram por alguns segundos.
Ninguém sabia como retomar seus afazeres. A lógica que aquele coletivo construíra a partir (e para) sua experiência de mundo fora quebrada, e qualquer iniciativa poderia soar estranha, desastrada, pois ainda não se dominava o novo sentido das coisas, dos fatos, das gentes.
30.
Rubens Bergel, médico e militante da VPR, cuja mulher – a também médica Eva Bergel – esteve presa na ala feminina do Tiradentes, tomou a palavra.
Rubens explicou ao Cláudio a rotina e o funcionamento da cela, os horários de silêncio; o revezamento de duplas que cuidavam da limpeza e da cozinha; a ginástica; o banho de sol; os jogos; os grupos de estudo; a leitura coletiva de jornais; a feitura de artesanatos e sua venda que revertia para a manutenção dos presos cujas famílias se encontravam em dificuldade, e às vezes para a manutenção dessas próprias famílias. Com a intenção de integrar o recém chegado a essas dinâmicas ou por descurada retórica, Bergel encerrou sua apresentação perguntando ao novo membro do coletivo o que ele pretendia fazer naquela cela.
Cláudio foi incisivo:
– Acredito que fui claro: eu pretendo me suicidar.
Estou aqui para me suicidar.
31.
A chegada do marinheiro abalou o dia-a-dia da cela 3, introduzindo novos elementos no seu cotidiano.
Naquela noite, alguns pretenderam esconder todos os materiais cortantes ou pontiagudos. Houve também quem propusesse revezamentos, rondas e vigílias.
Essas preocupações foram resolvidas em conversas pelos cantos, pois Cláudio não deveria ouví-las.
Prevaleceu a idéia de não fazer nada de extraordinário, de “deixar a vida transcorrer no seu ritmo normal” – proposta que costuma surgir sempre que aquele “ritmo”, aquela “normalidade” a que se refere jamais poderão ser retomados, recapturados.
32.
X era um jovem advogado (28 anos) do interior de São Paulo. Não fugiu à regra de quantos foram presos: foi barbaramente torturado.
No entanto – comentara com alguns companheiros ainda no Departamento da Ordem Política e Social (Dops) -, a maior violência para ele não haviam sido os choques elétricos, o pau-de-arara ou os espancamentos, mas o fato de ter sido despido e assim mantido na presença dos seus torturadores e de outros militantes homens e mulheres. Inclusive de uma freira.
Fora enfático:
“Nunca mijei na frente de ninguém. Nunca troquei de roupa na frente de outras pessoas”.
Na cela 3 ele estava todo o tempo de pijama. Sempre pijamas de calças e mangas compridas. Ficava a maior parte dos dias e noites em sua cama, lendo, anotando, com fortes dores na coluna. A dificuldade de andar fazia com que estivesse sempre de bengala quando se punha de pé. Pele muito branca, muitc magro, cabelos finos e escorridos – mesmo com seu corte baixo – tornara-se uma figura esquálida.
Na manhã seguinte à chegada de Cláudio, X acorda cedo. Levanta-se da cama na parte superior do beliche, e desce de um salto para o soalho de tábuas. Despe na presença de todos o pijama e se põe numa sunga.
Mune-se de dois pequenos alteres e, meio ao espanto que cada um tenta disfarçar, começa a pular, ora abrindo pernas e fechando braços, ora fechando pernas e abrindo braços. Permanece assim por aproximadamente uma hora. Sua muito e conta em voz alta: um, dois, um, dois, um, dois.
Depois, X voltou à sua cama, aos seus pijamas e à sua bengala, situação em que se manteve até ser solto, alguns anos mais tarde.
33.
Y, um cabo do Exército de 25 anos e que abandonou o Quartel de Quitaúna (Osasco-SP) com o capitão Carlos Lamarca, levando um carregamento de fuzis FAL, também morava na cela 3.
Além das redobradas sevícias durante o período de interrogatórios pelo fato de desertar do Exército Brasileiro, Y foi mandado torturar pelo juiz Nelson Machado Guimarães no porão da Segunda Auditoria Militar de São Paulo, já na fase de instrução do processo, por se negar a confirmar em juízo um depoimento que fizera sob tortura.
O cabo Y andava torto e com dificuldade. Claudicava. Sofrera diversas fraturas nos pés, pernas, braços, mãos, dedos e costelas.
Na tarde seguinte à chegada de Cláudio e ao seu discurso, o cabo Y dirigia-se do seu beliche rumo à cozinha, quando tropeçou numa pequena mesa quadrada, de madeira, e que havia sido deixada alguns centímetros fora do local onde deveria estar.
O cabo entra em fúria e com um porrete destrói, aos berros e quase chorando, o pequeno móvel.
Em seguida, recolhe-se à sua cama. Fecha o cortinado e chora.
34.
Houve os que encontraram outras maneiras de se manifestar frente à nova realidade que se instalou com a presença e as falas do marinheiro.
Bergel decidiu se aventurar em leituras na área da psiquiatria, visando cuidar do marinheiro. Esforço que não passou de algumas páginas e de uma frustrada tentativa de se colocar a serviço de Cláudio enquanto profissional da medicina, no que aliás fora desestimulado desde o início pelo Leo – a quem consultara a respeito. Acabou por substituir a intenção de médico apenas pela de companheiro o que pareceu ser um melhor juízo.
Antônio de Neiva Moreira – o Neiva, um estudante de Economia da Ala Vermelha (por volta de 23 anos), fez grande camaradagem com Cláudio. Neiva o iniciou no futebol e no jogo de bridge que, antes, costumava reunir – em torno da mesa agora destruída por Y – além do próprio Neiva, Jorge Matoso (Poc), Fernando Kolleritz (Rede), Antônio Marcello (AV) e Hélio Cabral (AV), da cela 3, e convidados e visitantes de outras celas como Antônio de Pádua Prado Júnior – o Paeco (Var-Palmares), Régis Stephan Andrade (Poc) e Manoel Moraes – o Mané Engenheiro (ALN).
O jornalista Severino – o Biu, ouvira atento o discurso de Cláudio, com quem estabeleceu uma boa comunicação desde a noite de sua chegada. A fala do marinheiro calara no jornalista pela sua capacidade concomitante de revelar e ocultar. Parecia-lhe estar frente a frente com um iceberg, cuja ponta – com sua monumentalidade e brilho indicente -, ainda que real, monopoliza os sentidos dos marinheiros de primeira viagem, e passa a funcionar como um sinal às avessas, tornando os navegantes incapazes de se indagar sobre a parte maior e principal da geleira – a parte que de fato provoca os naufrágios, e que permanece submersa nas profundezas. Era o que manifestava em conversas reservadas, acrescentando intuir embora não localizasse – existência de um núcleo (que se colocava para além do explicitado no discurso) gerador de grande sofrimento. Um núcleo (fato, coisa, saber ou processo.) com o qual o marinheiro não conseguia lidar, e frente ao qual se debatia e se atormentava. A este respeito, e para ilustrar o pretendia dizer, comentou: – Assim como o hábito não faz o monge, não são os chifres, as asas de morcego, o rabo ou o tridente que nos dizem da natureza do demônio. Aliás, quando o representamos somente através desses acessórios, apenas o tornamos mais doméstico, mais familiar, mais palatável para nós mesmos. A contrapartida dessa acomodação porém, é que ficamos, mais que nunca, expostos e vulneráveis à sua natureza. Além disto, comentava que os comportamentos desencadeados com a chegada do marinheiro o remetiam sempre ao ensaio de Foucault sobre a tela de Velásquez que retrata a Infanta e suas aias. Para ele, desencadeara-se no coletivo da cela um “jogo de espelhos” semelhante àquele armado pelo pintor espanhol, e no qual se tornava difícil distinguir as imagens reais das virtuais, os objetos dos sujeitos, e ambos dos seus reflexos.
Em diversos momentos, Cláudio juntou-se ao Biu e ao Leo na “patrulha da madrugada” – os que ficavam acordados até quase o raiar do dia. Longas conversas, sem pauta e sem medidas, entremeadas por sanduíches de recheios insólitos (o que houvesse à disposição) e pelas sopas de óleo, alho, pão, sal e água preparadas por Mário Bougliani – o Bugliugli, um líder rural cortador de cana, de uns 28 anos, e da direção das Faln.
De qualquer modo, foi a cela 3 unanimemente que decidiu receber aquele marinheiro cuja história provocava resistências na maioria dos presos. E o recebeu bem – não apenas enquanto coletivo, mas também enquanto cada um dos indivíduos que o compunham.
35.
Cláudio não se suicidou. Preencheu a vaga do Marujo que o antecedera e se integrou nas tensões do presídio. Além das tarefas práticas do coletivo, dedicou-se com afinco ao estudo. Elegeu a filosofia e a epistemologia enquanto seus temas.
Ainda que o explicitassem apenas através do silêncio, alguns presos de outras celas o tratavam como se fosse um preso político de segunda categoria, quase um pária. Mas um pária intocável, como na Índia. Modo geral, o marinheiro acabou conquistando a solidariedade da maioria do presídio.
Retomou contato com seus antigos camaradas da VPR e da Var-Parmares: encontrou bons amigos no arquiteto e artista plástico Sérgio Ferro, e em Max, um advogado trabalhista gaúcho.
Sempre que podia e que o carcereiro de plantão permitia, Cláudio passava horas na cela 4, conversando. Era a cela de Ferro, onde trocavam idéias sobre vários assuntos, tendo quase sempre como detonador imediato dos temas, os trabalhos (pinturas, montagens e desenhos) de Sérgio. Muitas vezes, a conversa podia derivar para Freud, cuja obra Sérgio lia criteriosamente naquele momento. Mas Sérgio foi solto pouco tempo depois da chegada do marinheiro.
36.
Biu e Max acabaram por se tornar os amigos mais próximos de Cláudio.
Com Max, Cláudio se inicia no estudo dos estruturalistas. O ponto de partida foi o manual de Marta Harnecker e Louis Althusser. Traçaram então um ambicioso plano de leituras e estudos.
Cláudio gostaria que seu amigo Biu participasse do grupo. A reação do jornalista foi de recusa:
“– ‘Por Marx!’, antes de qualquer outra coisa, melhor que ‘Ler O Capital’ é simplesmente ler ‘O Capital”.
Os três partilharam a mesma cela, juntamente com nove outros presos: Antônio Fernando Bueno Marcello e Carlos Takaoka (AV – Ala Vermelha); Carlos Lichtsztejn, Carlos Russo e Manoel Cyrillo de Oliveira Netto (ALN – Ação Libertadora Nacional); Alberto Becker, o ex-padre Alípio Cristiano de Freitas e Manuel Porfírio (PRT – Partido Revolucionário dos Trabalhadores), e Vanderlei Caixe (Faln – Forças Armadas de Libertação Nacional). Ali foram parar depois de classificados de irrecuperáveis pela Auditoria Militar, e isolados do convívio com os demais detentos. No Pavilhão I, o espaço reservado a esse confinamento foi a cela 6. No Pavilhão II, duas celas foram usadas com o mesmo objetivo.
37.
Certamente Cláudio gostaria de ter aproximado mais Max e Biu. Meta impossível. Embora de esquerda, eram duas personalidades e duas maneiras de se colocar frente ao mundo quase antípodas, pelo menos naquele tempo: o primeiro, com um grande encantamento pelo poder e por um saber que manejava enquanto instrumento desse poder. O segundo, com um desprezo quase anárquico pelo poder e seus áulicos, contra os quais manejava o saber e a dúvida. O primeiro se propunha um dirigente da Revolução. O segundo fazia questão de se dizer um revolucionário militante – mesmo que não abrisse mão do seu papel político frente à sua organização, àquele coletivo e aos rumos do País e do mundo.
Reconheciam-se mutuamente, respeitavam-se enquanto militantes de diferentes organizações (respectivamente Var-Parmares e Ala Vermelha), eram solidários entre si, mas certamente sabiam que, para além da polida postura com que se tratavam reciprocamente, qualquer aproximação maior seria postiça e indesejável para ambos.
Como suas organizações, os dois compartilhavam a opinião de que, frente àquela conjuntura e à correlação de forças que estava posta, era hora da esquerda – em termos políticos – recuar do confronto armado em curso e – em termos teóricos – fazer uma leitura não dogmática dos clássicos. Mas sabiam também que sua concordância, ainda que importante, não ia muito além do que essas formulações tinham de mais genérico. Provavelmente Max intuía que o Biu colocava limites precisos á sua autocrítica teórica e que, em termos políticos, não se dispunha a trocar a ação política por apenas uma “prática teórica” enquanto orientação para todos os militantes. Certamente o Biu, por sua vez, farejava que a autocrítica de Max – em termos teóricos – implicaria em jogar a criança junto com a água do banho, do mesmo modo que o recuo político que Max propunha avançava muito além da discussão da forma de luta em pauta, implicando em algum outro projeto onde necessariamente deveria ser abandonada a perspectiva do fim da propriedade privada dos meios de produção. Ambos percebiam as desconfianças recíprocas e civilizadamente jogavam seus jogos, ricos em farpas. Sem dúvida, irritava ao Max a insistência do Biu em diferenciar suas posições. Sem dúvida, irritava ao Biu a insistência de Max em envolver num mesmo bloco todos os que faziam a crítica do confronto armado imediato, visando levar o coletivo de presos a uma polarização que o jornalista considerava indesejável, ainda que, no outro extremo, muitos dos presos que se negavam a rediscutir suas estratégias e táticas para aquela conjuntura, também apostassem na intolerância, e na submissão daquele coletivo heterogêneo a suas políticas.
38.
É possível que a amizade especial que Cláudio dividia entre esses dois personagens tão dispares refletisse de certo modo o permanente dilaceramento espiritual do marinheiro entre a ordem e a transgressão. A dimensão e a falta de saída para esse dilaceramento podiam ser percebidas em seus discursos, onde a ordem estava sempre presente através da desagregação e da morte: a prostituição da mãe, o assassinato da namorada, a estigmatização dos comportamentos desviantes, etc. Por outro lado, qualquer tentativa de transgressão, de rompimento com essa ordem na qual imergira de cabeça ao assassinar sua mulher, colocava-lhe na linha de horizonte o suicídio – mesmo que acompanhado da idéia jamais formulada e menos ainda enunciada da ressurreição.
Com Max, Cláudio preferia conversar sobre os livros. Com Biu, sobre a vida. Com ambos, discutia sobre política em geral e os problemas da cadeia, acabando toda vez, nesse sentido, por se aproximar mais das posições de Max. Apr mação que tendeu a se aprofundar com o decorrer do tempo.
De qualquer modo, às suas maneiras, Max e Biu sabiam ouví-lo e entendê-lo, e em alguma medida devem ter correspondido às necessidades e expectativas do marinheiro naquele instante.
39.
Nos dias de banho de sol, Cláudio gostava do futebol. Perna-de-pau, jogava na defesa – geralmente goleiro. O esporte evidenciava gestos desconexos, movimentos desconcatenados que a tensa e rígida expressão corporal do dia-a-dia tentava esconder.
Inteligência brilhante, seu pensamento tendia a um racionalismo exacerbado.
Dominava-o um forte senso de coerência, lealdade e justiça – crivo a que submetia rigorosamente cada um dos seus gestos, bem como os dos demais.
Alternava isto com momentos de explosão passional o que, pelo menos no Tiradentes, se canalizava para as partidas de futebol ou de bridge.
Embora em conversas reservadas com os amigos mais próximos – no começo com freqüência e com o decorrer do tempo cada vez mais esparsamente se referisse ao crime que cometera, nunca assumiu uma postura ou um discurso autocomiserativo. Também, mesmo quando se referia a ela, jamais pronunciou o nome Cleide. Era sempre “minha companheira”, “minha companheira que assassinei”.
40.
Desde a eleição em 1970 do socialista Salvador Allende, com o apoio de comunistas e cristãos de esquerda, Santiago tornara-se a capital política dos revolucionários. O Chile da Unidade Popular é a esperança das forças de esquerda do Continente e de todo o mundo. Milhares de latino-americanos e especialmente de brasileiros banidos, exilados, perseguidos – clandestinos ou não – acorrem para aquele país. Marujo está em Santiago. Engaja-se num grupo que discute a política para o Brasil. Participa do projeto chileno em curso que, muitos tinham clareza, se encaminhava irreversivelmente rumo a uma ruptura, para a qual, mais uma vez e como acontecera no Brasil em 1964, a esquerda reformista não se preparava adequadamente: sucediam-se as ações de desestabilização e boicotes da direita contra o Governo instalado no La Moneda.
41.
“eu quero te contar das chuvas que apanhei das noites que varei no escuro a te buscar eu quero te mostrar as marcas que ganhei nas lutas contra o rei nas discussões com Deus”
Naquela manhã, a música chegava a seu final no toca-discos portátil que revezava pelas celas do Tiradentes, e que cumpria turno na cela 3. O almoço começava a ser servido.
Cláudio desce bruscamente do seu beliche com a fisionomia descomposta e, com algum constrangimento, pede que ponham outra música, que troquem o disco.
Nunca manifestara reação daquele tipo.
Assim como jamais se referiu à sua mulher pelo nome, jamais falou de seu afeto. É possível que essa haja sido a única vez que, através de um gesto, tenha aludido a esse afeto.
42.
1972. Um dia, por ordem das autoridades, Cláudio é levado de volta a Pernambuco, para o presídio da ilha de Itamaracá.
De lá, continua a manter correspondência com alguns companheiros de São Paulo.
43.
1973. Os presos políticos de São Paulo estão no Pavilhão 5 do Carandiru. O Tiradentes foi desativado e está em demolição para dar lugar à Estação Tiradentes do metrô.
Numa manhã de sábado, B., casada com A.C., um ex-preso, visita o presídio. Chegara de Santiago. Além de notícias que diziam da grande tensão política por que passava o Chile, traz um documento clandestino elaborado por um grupo de brasileiros no Exterior, do qual faz parte o Marujo. Um texto organizado em tópicos, analisando a situação do Brasil, apontando um novo rumo político para a esquerda. Como eixos centrais, uma política de organização de massas, prioritariamente a classe operária, e a luta pelo estado de direito, ainda que numa sociedade capitalista. Trata-se de derrubar a ditadura, mas não mais se coloca na ordem do dia a tomada do poder e a constituição de um governo popular ou socialista. A nova tática entende que o estado de direito ainda que uma democracia burguesa e formal – é indispensável para o acúmulo de forças por parte dos revolucionários, depois do massacre das organizações de esquerda. A estratégia passa a ser criar condições para acumular a força necessária à tomada e garantia do poder e construção de uma sociedade socialista.
Era o que afirmava o documento, e que ía no mesmo rumo da autocrítica que o Biu e seus camaradas da Ala Vermelha vinham desenvolvendo.
44.
1973.
“La Moneda foi tomado. Missão cumprida. O presidente está morto”.
– Anuncia o general Javier Palácios, comandante da tropa que invadiu o Palácio de La Moneda, sede do Governo chileno.
45.
Otacílio deixa o Chile. Vai correr mundo, juntando-se ora aqui, ora ali, a outros exilados das diversas ditaduras do Cone Sul, muitos dos quais seus companheiros brasileiros de militância e/ou de prisão.
Cuba, Europa, Otacílio agora é enfermeiro.
46.
1976 ou 1977. O dia está bonito. Em Itamaracá, presos tomam banho de mar. Estão na praia ou dentro d’água. Ao largo, submersa, uma cerca eletrificada é percebida pelas bóias de sinalização. É o limite. A fronteira.
Na hora de recolher, a carceragem conta os presos.
Faltam dois. Alarme geral.
47.
No dia seguinte, um dos corpos é encontrado, ainda com suas vestes improvisadas de borracha, feitas de câmaras de pneus.
O segundo fugitivo jamais foi localizado.
Até hoje, alguns dos seus companheiros são peremptórios em afirmar que Cláudio também morreu eletrocutado e afogado naquela tentativa de fuga, mas que o corpo do marinheiro foi levado pela maré.
Outros garantem que ele conseguiu escapar, que mudou de identidade e vive clandestino em algum lugar do planeta.
48.
A partir de 1979, os aeroportos brasileiros vivem dias de grande agitação. Faixas, bandeiras, palavras de ordem, votos de boas vindas inscritos em cartazes e seguidos de nomes. Cantos, hinos, discursos.
Sobretudo nos aeroportos internacionais de São Paulo, Rio de Janeiro e Recife.
Tudo começou desde agosto daquele ano, com a promulgação da lei de Anistia.
Exilados e banidos estão de volta.
Otacílio, no entanto, chega discreto, com mulher e filho.
Procura amigos, velhos companheiros. O encontro com Biu é rápido, acidental. Cruzam-se no escritório do advogado Airton Soares, onde também estava a sede provisória do Partido dos Trabalhadores, de cuja construção o Biu participava ativamente.
Naqueles dez anos o Marujo quase não mudara. O mesmo jeito, a mesma disposição.
Também os mesmos pesadelos.
Tenta se instalar em São Paulo. Depois, em Guarulhos, onde entra em contato com o espanhol Vicente Eduardo Gómez Roig (da Ala Vermelha) e sua mulher Nadja Leite de Oliveira, com os quais esteve preso no Tiradentes e, em seguida (com Vicente), no Carandiru.
Fica um tempo em Guarulhos com o casal de amigos.
Mas o País da abertura e as perspectivas políticas que então se desenham não são seus. Pelo menos, não se reconhece nesse Brasil.
Otacílio vai embora.
Outra vez percorre países e continentes.
Não se reconhece nas democracias capitalistas da Europa Ocidental, ou nos regimes socialistas do Leste ou de Cuba.
Na busca de um lugar no mundo onde caiba, vai ajudar a construir o socialismo nas jovens nações africanas de língua portuguesa.
No final dos 1980, com pouco mais de 40 anos, morre em Moçambique, em conseqüência de um câncer.
São Paulo, outono de 2000
Campinas, outono de 2001
Lisboa, primavera de 2001
Notas do autor
Apesar da estrutura escolhida para a narrativa;
apesar do autor ter se permitido, no que se refere aos primeiros dias da prisão de Octacllio (11, 12 e 13) e dos acontecimentos envolvendo seu pai (1, 3, 6 e 8), recriar possíveis situações uma vez que todas as fontes consultadas (expresos) são incapazes de informar de forma coerente como aconteceu exatamente a tomada de ciência por parte de Otacílio ou do seu pai sobre aqueles fatos;
apesar do discurso de Cláudio (28)ter sido reconstituído de memória 30 anos depois de acontecido, este não é um texto de ficção. Ao contrário, ele busca se aproximar o mais possível da realidade factual que quer relatar, inclusive no que diz respeito às palavras, assuntos e énfases de Cláudio.
São fatos verídicos sobre pessoas que tentaram construir um outro Pals, um outro mundo. Socialistas.
2, 4, 16 e 19 – Adaptações de trechos do texto “Ciranda, dança popular”, do padre Jaime C. Diniz, publicado na apresentação do LP (e depois CD) Música Popular do Nordeste 2, da coleção Música Popular Brasileira de Marcus Pereira.
25 – Transcrição de trecho do “Testamento sob a forca”, Julio Fuchik – Editora Brasil Debates, 1980, in “Dossiê dos mortos e desaparecidos políticos a partir de 1964”, Comissão de Familiares de Mortos e Desaparecidos Políticos, Instituto de Estudo da Violência do Estado (IEVE), Grupo Tortura Nunca Mais RJ e PE, Cepe – Companhia Editora de Pernambuco e Governo do Estado de Pernambuco – 1995.
41 – Transcrição de versos da música “Sem Fantasia”, composta por Chico Buarque de Holanda para sua peça “Roda-Viva”.
44 – In Jornal da Tarde – 22.09.1973 – Pág. 7.