Helenita Matos e Aytan Sipahi
31-05-2020
No início de 2020 o mundo se viu envolvido por uma pandemia sanitária, a do vírus da Covid-19, altamente contagioso, que resultou na mais devastadora crise da Saúde dos últimos 100 anos, comparável à peste negra dos sec. 14 e 19, e agora com cerca de 6 milhões de casos e mais de 300 mil mortos em todos os continentes, em especial América do Norte e Europa.
No Brasil foi detectada pela primeira vez no final de fevereiro e hoje, dia em que escrevo este relato, já conta com mais de 500 mil infectados e cerca de 30 mil mortes no país.
O enfrentamento da pandemia no Brasil é de chorar e dar vergonha – não havendo ainda vacina nem medicação específica, todas as utilizadas são principalmente sintomáticas e dependem da gravidade do caso – única maneira de conter o vírus e impedir a contaminação maciça da população e o caos nos serviços hospitalares, incluindo as internações em UTI, é o isolamento social, mantendo as pessoas afastadas umas das outras, de preferência em casa na chamada quarentena, como está sendo feito no mundo inteiro, com relevância em sua contenção.
Pois bem: o Brasil tem um Presidente (sic) pra lá de insano, Jair Bolsonaro, que boicota este isolamento desde o início, diferentemente de todos os demais líderes do planeta, contra as determinações da OMS e do seu próprio Ministério da Saúde… Em declarações ao vivo e em redes sociais e aliado a empresários gananciosos, induz a aglomerações e negação do isolamento por uma parcela importante da população, com o consequente aumento do número de infectados, internados e óbitos diários, que já chegam só hoje a mais de mil por dia.
Em menos de dois meses trocou dois Ministros da Saúde, em plena pandemia, momento em que a curva de infectados aumenta exponencialmente… uma irresponsabilidade sem paralelo!
É necessário registrar como histórica, a postura de muitos governadores de estado (de todas as correntes políticas) em fazer oposição ao descalabro presidencial e tentar manter suas populações em isolamento o máximo possível e fornecer a elas todos os recursos de que são capazes, dada à anomia do governo federal para com a crise. Nesse grande grupo dissidente, chamam atenção em especial os Governadores do Nordeste, os mais prejudicados pelas consequências sanitária e econômica da pandemia, e que chegaram a formar um Consórcio entre eles para gerir e distribuir os recursos conforme as necessidades, além de criar um Comitê Científico sob a direção do mundialmente renomado médico e pesquisador Miguel Nicolelis para coordenar as ações sanitárias e de investigação científica naquela região.
Nordestina que sou, quero registrar ainda meu profundo respeito e orgulho por essa postura humanitária e politicamente corajosa dos meus conterrâneos, esperando que tenham êxito no combate a esta tragédia que sabemos quando começou mas não temos nenhuma ideia concreta de como e quando será contida, nem a dimensão das perdas humanas que ainda teremos que chorar…
31-08-2020
Muito mais mortes tivemos que chorar… e muitas delas teriam sido evitadas se tivéssemos à frente do governo do nosso hoje triste país um presidente decente, responsável e com alguma empatia pelos seus cidadãos; mas o que temos é esta figura insana da qual falamos antes – o senhor Jair Messias Bolsonaro – que ficará para a história desta pandemia, e quiçá para a História, como o chefe de Estado mais irresponsável das Américas, Europa, Ásia, África e Oceania em todos os tempos!
Completados seis (6) meses do primeiro caso de infecção por Covid-19, a maioria da população fazendo o isolamento possível e a economia em derrocada, já somamos em torno de 4 milhões de infectados e o número estarrecedor de 124 mil mortos em todo o país, numa média macabra de 1.000 pessoas por dia e ainda sem perspectiva de contenção da tragédia a curto prazo. Continuamos há 4 meses sem ministro da Saúde efetivo (o interino, um militar sem qualificação para o cargo) e o presidente continuando a minimizar a doença e receitando por conta própria e publicamente medicamentos sem comprovação científica.
Por último faz campanha pela desmobilização popular em relação à expectativa de uma eventual vacinação, alegando “liberdade individual” e não coletiva como deveria ser. Para completar o quadro, acaba de nomear um médico veterinário para dirigir as ações de vacinação quando ela estiver disponível – um profissional que pode até ser competente na sua área, mas sem nenhuma experiência em epidemiologia e imunização humanas.
É a tragédia que vivemos…
31-05-2021
Transcorrido exatamente 1 ano do meu primeiro relato sobre a pandemia da Covid-19 no Brasil, retorno ao tema com profunda tristeza. Uma tentativa que nunca será suficiente por mais que eu me esforce, de traduzir em palavras, números e no registro dos fatos mais relevantes, todo o horror desta tragédia humanitária que se abateu, e continua, sobre a população brasileira.
Desde agosto de 2020, quando tínhamos o general Eduardo Pazuello ainda como ministro interino da Saúde e registrávamos 4 milhões de infectados e 124 mil mortos, chegamos hoje ao número estarrecedor de 16,7 milhões de infectados e 468 mil brasileiros mortos! E o general, incompetente e submisso à política negacionista do Presidente, foi confirmado e permaneceu no cargo até um mês atrás… Neste período o governante e seu ministro negavam explicita e publicamente todas as medidas de segurança sanitária (uso de máscaras e distanciamento social), promoviam o uso de medicamentos sem comprovação científica (o kit-covid à base de cloroquina e ivermectina) e boicotaram a compra de vacinas para imunizar efetivamente a população, apesar das repetidas ofertas pelos laboratórios internacionais, só as confirmando no início deste ano, além da realização quase semanal pelo presidente de eventos políticos por todo o país com estímulo a grandes aglomerações – apostando claramente, de forma criminosa, na chamada “imunidade de rebanho”, teoria que pressupõe a contaminação espontânea da comunidade para atingir a imunidade coletiva e a eliminação do vírus, sem levar em conta o número de mortes e\ou complicações que possam ocorrer neste processo. Por essa conduta desumana, a dupla já colou às suas figuras os epítetos de genocida e ministro da morte…
O contraponto que minimizou parcialmente a grave situação sanitária se deu pela iniciativa do governo de São Paulo no 2º semestre de 2020, de iniciar, através do Instituto Butantã, a produção da vacina chinesa CoronaVac que começou a ser administrada à população no início deste ano. Recebida como um desafio de caráter também político oposicionista, a iniciativa praticamente obrigou o governo central a retomar a negociação com os laboratórios para aquisição das vacinas previamente oferecidas, e sonegadas, havia mais de 1 semestre.
O resultado é que temos até agora apenas 10% da população brasileira imunizada com as duas doses de uma das vacinas disponíveis e outros 10% que ainda agora só receberam uma dose. À CoronaVac produzida pelo Butantã em maior quantidade, vêm se somando agora aos poucos e muito lentamente, pelo retardo na negociação, novas quantidades da AstraZeneca produzida pela FioCruz no Rio e da importada, da Pfizer. Está prevista a chegada de outras, também importadas, mas só no 2º semestre do ano.
Foram e ainda são estas as condições que nos têm levado a este número assustador de casos graves da doença, da perda irreparável dos nossos mortos e da dor de quase meio milhão de famílias, cuja maioria poderia ter sido evitada não fosse o governo irresponsável que temos. Acrescido ao desemprego de quase 15% (mais de 14 milhões), 20 milhões de subempregados e o aumento exponencial da miséria e da fome (cerca de 30 milhões).
É a tragédia humanitária em estado puro!
Entretanto, aqui também, assim como vimos enfrentando os efeitos políticos e sociais do golpe de 2016, as ações de resistência aos efeitos da pandemia têm seu lugar: setores da Justiça, o polo progressista do Congresso, a maioria dos governadores e prefeitos, o jornalismo consciente, entidades como OAB, Comissão Justiça e Paz, ABI e outros setores da sociedade civil organizada vêm atuando, cada um na sua área, para reduzir os danos e exigir mudanças. Foi assim que se conseguiu o auxílio emergencial em 2020 e sua manutenção, embora de menor valor para este ano, além de algumas medidas de proteção social aos mais vulneráveis; através da pressão desses setores, tem-se conseguido a aquisição efetiva e mais imediata de vacinas para a população. Foi assim também que se obteve a instalação da CPI no Senado para apurar as responsabilidades do governo central nas ações e omissões relativas ao combate à pandemia, que está em pleno funcionamento e da qual esperamos resultados concretos que lhe permitam a responsabilização pelas condutas claramente dolosas até aqui, a punição dos responsáveis e até quem sabe, o afastamento deste genocida do poder, permitindo a correção de rumos necessária à luta pela vida.
06-06-2021
Ironicamente, por envolver o futebol que escolhemos como referência para este contexto, simbolismo da alegria do nosso povo, este último relato sobre a pandemia registra mais um ato de insanidade do presidente, autorizando a realização no Brasil da Copa América de Futebol, após a recusa da Colômbia e Argentina em sediá-la pelos riscos da Covid para suas populações.
Estamos conscientes que ainda teremos de chorar outros milhares de mortos até a imunização alcançar pelo menos 70% da população, até que a situação esteja sob controle. Sabemos que até lá seremos obrigados a conviver com o isolamento entre amigos e familiares, muitas vezes com a solidão de nós mesmos, e que, sobrevivendo, teremos de lidar com a angústia cotidiana do medo, da incerteza e até mesmo do alívio quase culpado de ter as condições para sermos sobreviventes… mas sobretudo teremos a obrigação de nos indignar a cada dia por sermos testemunhas involuntários do maior desastre sanitário e socio- humanitário que foi imposto propositalmente ao nosso povo por um governante psicopata, sem caráter, sem empatia e sem qualquer pequeno traço de humanidade.
Evolução:
* julho de 2021 – 578 mil mortos
* agosto de 2021 – 592 mil mortos
* setembro de 2021 – 608 mil mortos
* dezembro de 2021 – 630 mil mortos
* fevereiro de 2022 – 650 mil mortos
* agosto de 2022 – 685 mil mortos
Neste ano de 2022 tivemos uma elevação do número de infectados por uma nova variante do vírus da Covid (a ômicron), felizmente menos letal em virtude da vacinação completa (duas doses) de, pelo menos, 79,5% da população, incluindo hoje crianças acima de 3 anos de idade.
Como se pode observar, após o início e continuidade do programa de vacinação, o aumento do número de óbitos por mês passou a ser reduzido, demonstrando a eficácia das vacinas na transmissão e gravidade da doença.
A lição que fica e que não pode ser esquecida: estima-se que cerca de 30% das mortes causadas pela Covid-19 no Brasil poderiam ter sido evitadas, inclusive a do nosso querido ALÍPIO, se não tivéssemos na presidência do país este sociopata inescrupuloso, senhor Jair Bolsonaro – um presidente negacionista, insensível à dor dos seus semelhantes, omisso, incompetente, fanático e alucinado, enfim, um GENOCIDA!
Não esqueçamos jamais da sua imagem imitando os pacientes com falta de ar no Amazonas!… aquela imagem será eterna e simbólica do Mal absoluto!
Quero lembrar, por ser testemunha do fato, que o nosso Alípio, aos 75 anos, iria tomar a 1* dose da vacina naquele mesmo dia em que foi acometido pela terrível infecção da covid-19, não resistindo a ela por não ter recebido ainda a proteção vacinal a que tinha direito e que provavelmente teria evitado a sua morte, como a de milhares de outros brasileiros!
Por tudo isto considero e classifico a sua morte, e a de tantos outros, como homicídio doloso, político e social, e não, embora também dolorosa, uma morte natural.
Quem vai pagar por elas ¿¿¿
# FORA BOLSONARO
