MÁQUINAS PARADAS,
FOTÓGRAFOS EM AÇÃO
Organizadores: Adilson Ruiz e Ennio Brauns
julho de 2017, 182 páginas | Editora: Fundação Perseu Abramo
A obra retrata as greves dos metalúrgicos de São Paulo e do ABC de 1978 a 1981 pelo olhar apurado de dez fotojornalistas e quatro articulistas. O livro registra, por meio de 169 fotografias e cinco artigos, uma narrativa que combina imagens e textos, conforme nos revela Ruiz:
“Recria aquele momento de luta dos trabalhadores sob a ótica de seus protagonistas: lideranças sindicais, trabalhadores anônimos, artistas, fotógrafos, cineastas, jornalistas”.Participam da obra, com textos, Adilson Ruiz, Alipio Freire, Ennio Brauns, Renato Tapajós e Roberto Gervitz; e com fotografias, Eduardo Simões, Ennio Brauns, Hélio Campos Mello, Jesus Carlos, João Bittar, Juca Martins, Nair Benedicto, Ricardo Alves, Ricardo Giraldez e Rosa Gauditano.
O COMEÇO DO FIM DA BADERNA por Alipio Freire
Em memória de Antônio Fernando Marcello e Júlio de Grammont, que criaram e dirigiram o ABCD Jornal e de Santo Dias, Cleodon Silva, Vito Giannotti e Waldemar Rossi, construtores e lideranças da Oposição Sindical Metalúrgica de São Paulo
O ano de 1978 marcará nossa História como o começo do fim da baderna instaurada no Brasil pelo golpe civil-militar de 1964. Naquele momento, a geopolítica dos Estados Unidos da América, o grande capital internacional, suas bases sociais, políticas e forças armadas internas colocaram de pernas para o ar todas as nossas instituições. A Constituição foi simplesmente rasgada e reciclada, transformando-se na prática em verdadeiro papel para higienizar direitos da classe trabalhadora e do povo. Era a higienização do que sobrara do capital nacional, a higienização da moral e costumes, da política, do ensino, das artes – enfim, de toda a nossa cultura e, em particular, de qualquer programa de reformas que se fundasse na distribuição de renda e na independência da nossa política externa.
Mas, sendo verdade que desde o golpe vários setores da sociedade brasileira buscaram caminhos para enfrentar o novo regime, acreditamos que até 1978 todas as iniciativas se colocaram numa posição de resistência defensiva e, quando ousaram dar passos além do que suas forças permitiam, acabaram por ser esmagadas.
É bem verdade que aqui e ali tivemos grandes manifestações de massa que marcaram importantes êxitos. Em 1973, a missa em protesto pelo assassinato do jovem estudante Alexandre Vannucchi Leme lotou a igreja e a Praça da Sé. Em 1975, o Culto Ecumênico e demais atividades que cercaram a morte, sob tortura, do jornalista Vladimir Herzog pelo DOI-CODI paulista foi a maior demonstração de repúdio aos ditadores, acontecida em São Paulo, nesse período. Poucos meses depois, o assassinato do operário Manuel Fiel Filho, nas mesmas circunstâncias, provoca a destituição do general Ednardo D’Ávila Melo, comandante do 2º Exército. Tais acontecimentos não foram de pouca importância, de pouco acerto, de pouco risco.
Assim, quando falamos de 1978 como o começo do fim da baderna implantada pelos golpistas, é simplesmente porque se levantavam os operários da indústria de ponta da nossa economia.
Organizados no interior dos seus locais de trabalho, nas comissões de fábrica clandestinas, assumiam uma nova prática de organização, hegemônica em nosso país naquele momento, que revolucionou a luta sindical e tornou trabalhadores mais aptos no embate com os patrões, com o regime e com o sistema.
Desde sempre tradição da esquerda – que em nosso país remonta ao século 19 -, durante a ditadura implantada com o golpe de 1964 e encerrada com a Constituição de 1988, floresceu no Brasil uma forte e múltipla produção de jornais e outras mídias impressas, de circulação pública e legal, sobretudo a partir da segunda metade dos anos 1970. Alguns desses jornais eram de circulação nacional e tinham como eixo a crítica ao regime – e muitas vezes ao próprio sistema – e a busca de uma nova alternativa política geral para o país, capaz de atender às necessidades e anseios da grande maioria dos brasileiros e brasileiras.
É desse tempo que militantes de diversas correntes da esquerda brasileira, ex-presos políticos ou não, profissionais do jornalismo ou não, partem para a criação de veículos de comunicação atentos a esses acontecimentos. Desde o início de 1976, o ABCD Jornal, dirigido por Antonio Marcello e Julinho de Grammont, já atuava em São Bernardo do Campo, registrando e discutindo a realidade e a organização nas periferias da região. Para termos uma idéia da popularidade e importância conquistadas pelo ABCD Jornal, basta lembrar que ele foi o primeiro jornal popular de esquerda, desde o golpe de 1964, a ter sucessivas tiragens de 200 mil exemplares.
Mas, se esse é um exemplo importante pela atenção editorial que dedicava aos assuntos locais, muitos jornais sugiram e contribuíram para ampliar as lutas e as conquistas dos trabalhadores.
Jornais de circulação nacional como Opinião, Pasquim, Movimento, Em Tempo, Versus, Companheiro, Trabalho etc., citando só o eixo Rio-São Paulo, foram importantes vetores de discussão daquele momento político.
Outros jornais de abrangência local ou específicos nos temas tratados, que circularam nessa época, foram o Repórter de Guarulhos; Jornal da Vila e Jornal da Periferia, ambos na zona sul de São Paulo; EspalhaFato, na zona leste; Repórter da Região, em Campinas. Tratando de temas e enfoques específicos, mas sem perder a perspectiva política, tivemos Maria Quitéria, Brasil Mulher, Nós Mulheres, Mulherio, Chana com Chana, Lampião da Esquina e muitos outros. Várias dessas publicações são mais profundamente abordadas no livro Jornalistas e Revolucionários, do jornalista Bernardo Kucinski, primeiro editor do jornal Em Tempo, em 1978.
Acrescente-se ainda que a Cúria Metropolitana de São Paulo reorientou o seu jornal, O São Paulo, para uma maior abordagem dos temas ligados aos trabalhadores.
Sindicatos reconquistados por suas categorias também criaram ou reorientaram suas publicações nessa direção. Caso muito interessante e importante, ainda pouco conhecido para além do mundo sindical, foram as publicações em forma de literatura de cordel – glosando a realidade social e política dos metalúrgicos paulistanos –, produzidas pelo operário Cleodon Silva para a Oposição Sindical Metalúrgica de São Paulo, de grande aceitação e influência na base da categoria.
Ora, é impossível imaginar tantas publicações, sem imagens. E os artistas das imagens também se organizavam. Entre outras, tivemos a União dos Fotógrafos, a Associação dos Artistas Gráficos e Fotógrafos – AAGRAF e, mais adiante, a Arfoc-SP. Feliz e indispensável encontro de militantes das palavras (textos) com os militantes das imagens (fotos, desenhos, charges etc.).
Entendo que o meu papel neste livro seja apenas revelar o que a nossa História Oficial apagou da memória dos que vieram depois desses acontecimentos, que as fotos tão bem documentam. Nessa empreitada, um dado interessante é que foi durante a homenagem póstuma ao nosso grande Vito Giannotti (“Cazzo, Vito!”)*, no Instituto Barão de Itararé, que o Ennio me convidou para participar deste projeto, o que, obviamente, aceitei de imediato.
No caso do Roberto Gervitz e dos fotógrafos deste livro – exceto Nair Benedicto, que nos encontramos compulsoriamente no DOPS paulista em 1969, ambos presos – eu os conheci todos e fiz amizade com muitos, entre trovoadas e festas, ao longo da saga da resistência contra a ditadura militar. Quanto ao Renato Tapajós, conhecemo-nos às vésperas do golpe de 1964, militamos juntos na Ala Vermelha – organização clandestina resultante de uma dissidência do PCdoB –, curtimos juntos os cinco anos de cana que nos coube viver, e continuamos sempre juntos. E o mais importante é que sei – tenho certeza – de que, como disse o nosso Gonzaguinha, “começaríamos tudo outra vez/ se preciso fosse (…)”.
*Vito Giannotti foi operário, liderança da Oposição Sindical Metalúrgica, um dos mais ativos militantes pela produção e divulgação de informação produzida pelos próprios trabalhadores. A expressão “Cazzo, Vito!” tomo emprestada do título do artigo publicado pela professora doutora Virgínia Fontes, quando do falecimento do camarada Vito Giannotti. Quem conheceu Vito, sabe que não poderia haver título mais feliz.
Agosto, 2016
A HISTÓRIA QUE A FOTOGRAFIA VÊ por Ennio Brauns
De todas as ramificações mais excitantes dessa profissão, a que mais me toca mesmo é a História. E o que mais me interessa, em tudo é a história. A grande e a pequena. A coletiva e a individual. A que vivemos e a que ouvimos falar. Mas, principalmente, por força do hábito, a que vemos e a que mostramos, mesmo aos que não querem ver. A fotografia tem essa vantagem e fotógrafos jornalistas são aqueles que fazem de tudo para aproveitar essa oportunidade.
Por que esse assunto?
As mobilizações dos operários metalúrgicos nas décadas de 1970/80, na região Metropolitana de São Paulo, têm seu momento mais importante nas greves de 78/79/80. São um marco na história das lutas populares no país e a expressão de uma experiência coletiva de trabalhadores que entusiasmou grande parte da sociedade civil nacional.
Revelam a capacidade da solidariedade na luta contra o Estado autoritário, como poucas vezes se viu na nossa História.
Os registros fotográficos desses acontecimentos apresentam um olhar racional, jornalístico, e uma leitura emocional, fotográfica, e isso é fundamental para entender o que acontecia com o país naqueles anos. Uma experiência como essa, que empolgou centenas de milhares de trabalhadores em torno de causas justas, necessárias e urgentes, não podia ser de outro jeito, mesmo. Em todas as imagens encontradas na pesquisa, podemos constatar, principalmente, que a história de um povo está na cara, nos gestos, nas ações coletivas e individuais, que sofrem as derrotas e festejam as vitórias.
Revisitar esse acervo fotográfico confirma a dimensão da necessidade de resgatar um dos momentos mais transformadores do movimento operário, na nossa história recente. Incentivar a divulgação dessa memória visual se apresenta como uma obrigação frente à História.
No final dos anos 1970 e começo dos 1980, nessa crescente mobilização dos movimentos populares contra a ditadura dos generais e dos empresários, vivia-se uma atmosfera de mudança, com a mobilização de diversas organizações de trabalhadores, inclusive jornalistas. Todas reivindicando direitos e liberdade. Nesse contexto, as greves metalúrgicas em São Paulo e no ABC representam, tanto para o movimento operário e sindical quanto para o fotojornalismo brasileiro, uma experiência de solidariedade, cumplicidade e consciência, que marcou muitas vidas.
Consequência disso ou não, um grande número de fotógrafos passou a concentrar sua atenção no registro de uma documentação jornalística que garantisse o fato e valorizas-se a realidade. Um conceito básico que precisava ser posto em prática, em tempos de censura militar à imprensa.
Uma década antes, uma geração de fotojornalistas no Rio e Brasília, como Walter Firmo e Evandro Teixeira, havia registrado, com garra, ousadia e destreza, a selvageria com que a polícia reprimia estudantes e trabalhadores entre os anos de 1964 e 1968, garantindo que a população visse como agiam as polícias e como eram brutalmente tratados aqueles que defendiam a democracia. Era necessária muita raiva para denunciar a fragilidade de quem apanhava.
No fim dos anos 1970, uma década depois, embora a repressão não tivesse diminuído, os profissionais que atuavam nos centros industriais tinham a oportunidade de revelar a reorganização dos trabalhadores, a renovação de suas lideranças, suas grandes manifestações e longas greves que desafiavam Estado e Capital, ao mesmo tempo.
Forma-se uma geração de jornalistas movida por um sentimento de satisfação em ter que relatar o novo. Havia prazer em registrar a reação coletiva da parte mais oprimida da sociedade.
É o surgimento, no fotojornalismo brasileiro, de uma nova postura profissional e política, que possibilitou muita troca de experiência e conhecimento. Muitos profissionais buscaram, cada vez mais, uma fotografia abrangente, inclusiva, vivenciada, que não nos deixassem esquecer das derrotas, mas valorizassem, com prazer, as vitórias na luta cotidiana, na greve, nas fábricas, nos bairros, nas ações coletivas.
Vários desses fotógrafos jornalistas ou jornalistas fotógrafos, como se queira chamar, trabalhavam com a certeza da importância de que aqueles registros deveriam voltar aos trabalhadores como informação e como reconhecimento da força da resistência que vinha das suas próprias ações.
É também o momento em que o fotojornalismo brasileiro começa a ganhar dimensão mundial e consciência profissional, nos grandes centros de comunicação do país. De prêmios e bolsas concedidos às reportagens fotográficas marcantes na história do jornalismo global a reuniões e debates que criaram associações e agências de fotógrafos, tudo que se viveu nesses anos representou uma experiência fantástica de vitalidade e compromisso, para aqueles que se interessavam pelas íntimas relações entre informação e fotografia.
Por que esses fotógrafos?
Talvez porque esses profissionais se conheçam há mais de três décadas e partilhem valores e concepções parecidas sobre a realidade, lá e aqui. Pode ser um bom motivo.
Na verdade, não são nem um grupo de profissionais com uma atuação comum, específica e coordenada, e nem todos permanecem na fotografia profissional atualmente, mas têm em comum o fato de que circularam, naqueles tempos, com os mesmos interesses e preocupações, pelas portas de metalúrgicas grandes e pequenas; pelas passeatas cheias de trabalhadores, policiais e bombas de gás; pelas assembleias com dezenas de milhares de metalúrgicos em São Paulo e São Bernardo; pelas madrugadas nos piquetes da zona sul ou no sindicato em véspera de intervenção.
Como profissionais e como cidadãos, essas pessoas aprenderam, juntas, muitas coisas que se acrescentaram às suas vidas. Por conta do que viveram, mostraram a história que viram. E reconhecem o valor do documento que produziram. As imagens que registraram na época têm muitos pontos em comum, inclusive por sua variedade. Tantas as semelhanças e as notórias diferenças. Tantas as particularidades e as inúmeras abrangências e Embora sejam fotógrafos oriundos de diversas regiões e camadas sociais, expressam-se com uma identidade estética e crítica tão grande que, juntos, constroem uma narrativa sólida e objetiva. São essas muitas coincidências na diversidade de olhares, que justificam a pretensão de apresentar essa coleção de fotografias e fotógrafos como representantes de um ponto de inflexão no fotojornalismo brasileiro:
1. Todos cobrimos esses acontecimentos por iniciativa própria, mesmo quando trabalhávamos contratados por algum veículo de comunicação. De alguma forma, e talvez por motivos diversos, tínhamos a certeza de que precisávamos viver aquela história e, por opção de ofício, torná-la pública.
2.Tínhamos consciência política da situação que vivíamos, e registrávamos tudo com a certeza de que só o que é visto pode ser conhecido e pensado.
3. Essa produção fotográfica foi publicada, principalmente, em jornais e revistas que se opunham à ditadura civil militar imposta ao país em 1964. Por isso, muitas dessas imagens que circulavam na mídia alternativa de esquerda eram também publicadas em vários boletins de associações e sindicatos de trabalhadores como solidariedade dos fotógrafos.
4. De forma ativa, todos nós colaboramos para as discussões sobre a profissão de Foto jornalista, no país: como se reconhecer profissional na categoria não existente dos freelancers? como se reconhecer jornalista quando nem os “coleguinhas” da redação reconheciam? como se reconhecer trabalhador num grupo marginalizado até pelo sindicato da categoria?
Nenhum de nós se furtou a participar intensamente desses debates.
Nessa tarefa de curadoria e edição, pude confirmar o valor e a força do testemunho visual de uma das mais cruciais passagens da história dos trabalhadores, em São Paulo.
Pelo recorte escolhido, devolvemos o protagonismo histórico aos que sempre estiveram submetidos ao protagonismo alheio: os trabalhadores. Procuramos dar contexto e coerência a essa pluralidade de testemunhos fotográficos, expor os registros factuais da maior disputa entre capital e trabalho, das últimas décadas, no país.
Essas imagens expressam a importância de reavivarmos essas narrativas, uma possível história da militância pela comunicação plural e democrática.
Definitivamente, essa publicação não vai esgotar nem o assunto nem o acervo de imagens que contam esse pedaço da nossa democracia em construção. Ainda há muito para se mostrar. O que fazemos aqui é apresentar fatos vividos para permitir que sejam refletidos na experiência de vida de cada um, nos dias que correm.
Nos tempos dúbios desse inconsistente 2016, isso se torna ainda mais necessário para não perdermos o fio da meada.
Agosto, 2016
