MÃES DE MAIO – A PERIFERIA GRITA
Mães do Cárcere
2012, 364 páginas | Editora: Nós por Nós
Essa publicação é dividida em três temáticas diferentes. A primeira, chamada “grito familiar”, reúne o relato de mais de 20 familiares e amigos de vítimas diretas da violência de agentes do estado, desde os crimes de maio de 2006. A segunda parte, “grito poético”, apresenta letras, contos e poesias de cerca de 40 poetas. A terceira e última parte, “grito dos parceiros”, traz textos de outros coletivos que se somam à luta do movimento em todo o Brasil.
CRIMES DE MAIO, MANIFESTAÇÃO DE UMA VIOLÊNCIA ESTRUTURAL 2 por Alipio Freire
Os organizadores do presente livro pediram originalmente que eu escrevesse um texto para esta publicação. Logo em seguida, por conhecerem os trabalhos que integram o livro “Poemas – De Ordem Política e Social” – que lançarei ainda neste primeiro semestre de 2013, sugeriram que, antes mesmo da edição dos poemas estar nas ruas, eu selecionasse alguns dos poemas e os publicasse neste novo livro das Mães de Maio.
São os poemas que seguem abaixo, que ilustram e estão intimamente articulados com o artigo “Crimes de Maio: uma violência estrutural”, que escrevi para a publicação anterior do Movimento das Mães de Maio.
O Golpe de 1964
PERDAS E DANOS
A classe trabalhadora e o povo
Dados da Comissão da Anistia
Do primeiro semestre de 2011
Informam que no Brasil
da ditadura fomos (entre civis e militares)
308 mil investigados milhares de cassados
30 mil torturados 500 assassinados
(dos quais cerca de 150 dados como
desaparecidos.)
Incontáveis os que tiveram de viver
clandestinos ou se exilar.
Isto para não falarmos
Da concentração da riqueza e da propriedade
Do aprofundamento das desigualdades
Do arrocho salarial
Da perda de direitos dos trabalhadores
Do êxodo rural
Do crescimento das favelas e submoradias
Da ampliação da miséria
Do crescimento vertiginoso da dívida externa
Da extinção de todos os direitos públicos
e dos milhões de homens e mulheres
que viveram sob terror permanente.
Foi ainda a ditadura que forjou e
divulgou a consigna
O que é bom para os Estados Unidos
é bom para o Brasil.
NB
As perseguições violências e crimes
do regime instalado com o golpe
foram apenas meios para concretizar
o programa do grande capital.
Os massacres e chacinas deste início
de século 21
contra os pobres do campo e das
cidades
também.
DA PENA DE MORTE
1969
Com a Lei de Segurança Nacional
de setembro de 1969
a ditadura instituiu formalmente a pena de morte.
Nunca a utilizou.
No entanto assassinou cerca de 500
dos nossos companheiros.
PS
Tutto nel mondo è burla
– cantam Falstaff e o coro
no final da ópera de Verdi.
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DA PENA DE MORTE
2012
Do período da ditadura
contabilizamos cerca de 500 camaradas
mortos ou desaparecidos
Em maio de 2006
na semana do dia-das-mães
em apenas 192 horas
a Polícia Militar assassinou
cerca de 600 cidadãos e cidadãs
em bairros populares da
Grande São Paulo:
Os Crimes de Maio.
Uma média de três assassinatos por hora
durante oito dias consecutivos.
NB
Em nossos bairros populares
não vigora sequer o mais singelo direito
que reza a Constituição:
O direito de ir e vir.
Quando desce a noite
os moradores se trancam em suas casas.
Todos temem igualmente o crime
organizado e as polícias.
DA TRAGÉDIA
Dos diálogos com Peter Weiss
Nós sobrevivemos
ao pau-de-arara
Mas o pau-de-arara
também sobreviveu
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DO ACALANTO
Na ditadura
Dos diálogos com um acalanto de domínio público
Feiticeira como a rosa
tão formosa
Era a minha bonequinha
Engraçadinha
Certo dia, deu-se um caso
por acaso
Mas não foi por gosto meu
que aconteceu…
…chegaram os agentes
paramilitares da Operação Bandeirante
invadiram a casa
seqüestraram
levaram para cárcere clandestino
torturaram
assassinaram e
sumiram com o corpo da moça.
PS
O terror de Estado contaminou tudo
Até o nosso mais lírico cancioneiro.
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ACALANTO
Na atual democracia
Dos diálogos com um acalanto de domínio público
Feiticeira como a rosa
tão formosa
Era a minha bonequinha
Engraçadinha
Certo dia, deu-se um caso
por acaso
Mas não foi por gosto meu
que aconteceu…
…chegaram os PMs
e os matadores
– os paramilitares do crime organizado
invadiram a casa
seqüestraram
levaram para cárcere clandestino
torturaram
assassinaram e
sumiram com o corpo da moça.
PS
O terror de Estado contaminou tudo
Até o nosso mais lírico cancioneir
DO PONTO DE PARTIDA
Dos diálogos com Carlos Drummond de Andrade
Tudo começou com um simples registro:
Tinha uma pedra no meio do caminho.
Depois
todo poeta sério começou a discutir o que
fazer com aquela pedra.
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HAI KAI DE PEDRA
PARA DRUMMOND
Dos diálogos com Carlos Drummond de Andrade
A poesia fugiu dos poemas dos
livros e dos jornais
Agora está nas pedras.
somente as pedras cantam um
mundo novo.
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DE POETAS E DE PEDRAS
As pedras não falam
mas quebram vidraças
adverte o poeta Sérgio Vaz
– colecionador de pedras.
Para os melhores poetas do povo
resistir é fundamental.
Ainda que nem sempre palavras sejam suficientes.
AS PEDRAS E OS CAMINHOS
Dos diálogos com Bob Dylan e Sérgio Vaz
As pedras do caminho nunca as deixem
para trás.
Recolham uma a uma
e guardem com todo cuidado
de modo a preservar cada aresta
cada reentrância
cada saliência
de modo a preservar peso e volume.
Ajam como zelosos colecionadores
de preciosidades.
Mais adiante teremos
muitas vidraças a enfrentar.
Vidraças metralhadoras e fuzis
blindados e mísseis
não se vergarão às nossas simples
palavras.
Daí então
as pedras falarão por nós
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DOS POEMAS DE PEDRA
Cantarei versos de pedras.
Não quero palavras débeis
para falar do combate.
Assim escreveu a poeta
Lara de Lemos
que conheceu como poucos
o caminho das pedras.
Para não deixar dúvidas
ou ambiguidades
Lara arrematou no mesmo
poema:
Prefiro o punhal ou foice
às palavras arredias.
Não darei a outra face.
NB
Foi Lara – a poeta
quem embarcou de uma
praia gaúcha deserta
o governador Leonel Brizola
em avião clandestino rumo
ao Uruguai
depois do golpe de 1964.
Quase em seguida
Lara foi presa.
AD ASTRA PER ASPERA
Dos diálogos com Armando Cavalcanti e Klecius Caldas
Não pode alcançar os astros
quem leva a vida de rastros
quem é poeira do chão.
– Afirma nosso cancioneiro popular
O poeta concorda
E subscreve.
NB
Por fim traduz o título um tanto pedante:
Rumo às estrelas
mesmo com dificuldade.
(Apenas um provérbio latino
popular em sua época).
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ROMANCE SONÂMBULO
Dos diálogos com Federico García Lorca e Fernando Pessoa
A metafísica ideais abstratos
me indica como caminho
a negociação e a paz entre as classes
na disputa dos seus interesses e poder.
Mas nesta vida em que sou meu dono
(e não sou meu sono)
a crua objetividade dos fatos
e o seu desenrolar em História
prontamente me fazem acordar
dos meus sonhos de sonâmbulo.
NB
– Camaradas quero morrer com decência (com os bolsos cheios de pedras).