DIADEMA CENTRO CULTURA
Organizadores: Alipio Freire e Walter Venturi Junior
1996, 153 páginas | Prefeitura de Diadema
“O que está sendo apresentado neste livro refere-se a um serviço de oficinas culturais em diversas linguagens (artes plásticas, dança, música, teatro, etc.), oferecido, nos onze centros culturais de Diadema, por uma administração pública, democrática e popular. Entendemos que esses trabalhos constituem uma síntese do projeto que desenvolvemos durante os quatro anos de nossa administração. É o resultado de uma gestão, expresso na produção artística daqueles que procuraram essas oficinas oferecidas pela Prefeitura“, trecho do texto Síntese de uma cidade de José Filippi Júnior, prefeito de Diadema pelo PT (1993 à 1996).
POSFÁCIO por Alipio Freire
A palavra humana é como um caldeirão
fendido onde batemos melodias para
fazer dançar os ursos, quando antes
queríamos enternecer as estrelas
(Gustave Flaubert – Madame Bovary)
O mundo está coberto de signos, representações que são expressões, falas da(s) cultura(s). Discursos inteiros ou truncados: signos isolados ou códigos que normatizam e/ou articulam esses signos em sistemas, em diversas linguagens visuais, auditivas, sensoriais em geral. É através dessas representações que os grupos sociais e/ou indivíduos comunicam-se, dialogando ou não. São discursos que obedecem sempre a lógica, correspondem a tais ou quais desejos, filosofias e interesses (de classes, grupos ou indivíduos) e, em geral, passam por cima e acima do entendimento e da capacidade de apreensão das grandes maiorias sociais, mas atingindo-as de forma invisível, determinando seus comportamentos e selando sua sorte. Na medida em que os discursos, para as maiorias, são incognicíveis – pois seus símbolos constituintes (“léxicos”), suas relações (“sintaxes”) e as normas de sua articulação (“gramática”) são desconhecidos e indecifráveis -, essas maiorias têm limitada ou perdem sua possibilidade de criação, de produção de novos conhecimentos, de intervenção, de fala.
O domínio e o controle dessas comunicações por uma minoria em detrimento das maiorias tornam-se, portanto, um importante instrumento de dominação social, política e econômica.
Reforçando esse controle (e como parte dele), constrói-se o mito das “artes” enquanto universo impenetrável, reservado a poucos, àqueles que por dons “naturais” ou divinos são capazes de atingir esse olimpo. Reproduzem-se, portanto, também aqui, conhecidos valores que vêm fazendo com que a maioria de homens e mulheres continue a transferir para outrem – homens ou deuses – o direito de decisão sobre seus destinos, em vez de tomá-los nas próprias mãos. Além de impenetrável – e por isto mesmo -, são atributos dessa “arte” ser coisa cara, de luxo e própria das elites (econômicas ou intelectuais). De todos os pontos de vista o inalcançável. O inefável. O indizível, ainda que dito.
Pelo menos em nosso país, o máximo que se tem conseguido avançar no sentido de romper com essa dinâmica refere-se ao ato de conceder acesso (em quase todos os casos precário) à expressão oral em língua portuguesa e à sua representação em escrita fonética (alfabeto latino), o que é genericamente chamado de alfabetização.
Indiscutivelmente essa alfabetização é de grande importância – sobretudo se utilizamos metodologias revolucionárias e democráticas. Aliás, qualquer comunicação de um indivíduo ou grupo com as instituições depende dessa alfabetização, e não é excessivo lembrar que o direito do voto no Brasil era negado até recentemente aos que não soubessem ao menos assinar (escrever) seu próprio nome.
Ainda assim, porém, a alfabetização é insuficiente se não transcende a bidimensionalidade do cotidiano (quase sempre e hoje mais do que nunca institucionalizado) e a leitura das normas do establishment, ao qual também deve o “cidadão” se dirigir nas formas adequadas às diversas situações: petições, memorandos, comunicações internas, respeitosos abaixo-assinados, piedosas listas de contribuições para a caridade pública, etc.
Ler e escrever é verdadeiramente importante quando se conforma em criação. Em conhecimento. Se a relação do leitor com os textos (inclusive o seu próprio) não for dialógica, nada se criará. Repetir-se-ão monocordicamente velhas fórmulas à esquerda ou à direita. Sem encararmos a tensão permanente entre o saber da experiência individual e coletiva e a sua representação simbólica (falada ou escrita), nossas palavras pouco avançarão além da comunicação trocada entre aves através de pios ou grasnados, ou o chacoalhar dos guizos dos répteis.
Ousamos afirmar que a relação de acomodação entreo sujeito e o código linguistico (sobretudo escrito), rigidamente disciplinado (como se fossem placas de trânsito, de significado fixo e de mão única de comunicação), necessita da intervenção permanente da arte da literatura – sobretudo da poética -, no sentido de desmontar a relação quase pavloviana que se estabelece entre o indivíduo ou os coletivos e as palavras ou os discursos (falados ou escritos). Certamente a descoberta dos haicais japoneses encantaram os pensadores e artistas ocidentais saturados de sonetos parnasianos, mais pelo potencial do seu caráter parabólico (tão adequado à tradição aforística da cultura oriental) do que pela sua rigidez formal. Explicamos: algumas dimensões e dinâmicas da realidade – objetiva ou subjetiva – escapam à construção do discurso lógico greco-latino (greco-romano) expresso em línguas normatizadas sobre matrizes aristotélicas. Só a desconstrução dessa lógica permite pois a expressão das novas realidades ou percepções.
Vem sendo a arte da literatura – afirmamos – um importante desalienador da fala e da escrita, pois é ela que freqüentemente tem apontado novas sínteses (ou pelo menos hipóteses) para a superação da contradição entre a acomodação conservadora das normas da fala e da escrita e a necessidade de correspondência e/ou adequação dessas simbolizações às novas percepções e realidades, de modo que a comunicação do novo se realize. É essa criação permanente que podemos chamar de produção de conhecimento no campo das artes.
A importância e a gravidade do que vimos afirmando talvez possam ser melhor entendidas se observarmos a relação que se estabelece entre as maiorias e os símbolos de agremiações (instituições) político-ideológicas, seja com a estrela do PT, o coração do Maluf, a cruz do Vaticano ou a lua e a estrela do Islá.
Escolhidos ou mantidos por seus significados culturais arquetípicos, mesmo tendo originalmente correspondido aos princípios e objetivos de suas respectivas agremiações, estas podem ter abandonado seus conteúdos iniciais, substituindo-os muitas vezes por outros antagônicos, sem no entanto fazer acompanhar essa mudança real pela alteração da sua expressão simbólica. A discussão da “arte” (ou da “ciência”?) da política, no entanto, foge aos limites deste texto(!).
A relação dos leitores (público) com as logomarcas das grandes empresas que os levam a consumir de um ponto de vista “mercadologicamente correto”, também obedece a um processo similar ao que vimos descrevendo.
Como vemos, passamos das intenções e tensões da escrita e língua com o real e o papel da arte da literatura, para os desígnios dos signos do design/desenho, enfrentando a mesma problemática. É a problemática das representações. E outra vez nos deparamos com o papel das “artes” e das artes.
Em Diadema, durante os últimos 14 anos de continuidade administrativa (1983-96) do= Partido dos Trabalhadores, foi tomando corpo uma política cultural no terreno das artes e das simbolizações, no processo de solução das carências básicas do município. Absolutamente precária em infra-estrutura urbana e saneamento, educação, habitação, saúde, transportes, etc., Diadema apresentava em 1980 uma taxa de mortalidade infantil de 83,93 por mil nascidos vivos, chegando em 1994 a 20,66 por mil, segundo a Fundação Seade.
Se, no começo, essa política cultural no terreno das artes tateou timidamente e posteriormente tropeçou em obstáculos, limitações e preconceitos dos seus próprios proponentes e gestores, nestes últimos quatro anos (1993-96), ela se afirmará enquanto pública, gratuita e universal. Mais do que isto, em prioridade de governo.
Impossível pensar em democracia sem pensar na plena garantia do direito de acesso e produção de conhecimento; sem o pleno direito à expressão, ao domínio da comunicação e seus instrumentos; sem o pleno direito ao verbo de modo que este se faça carne; sem o pleno direito de fala.
Não é por acaso que Diadema, conhecida até o começo dos anos 80 como o local da miséria e da violência, sítio da “desova dos presuntos” dos esquadrões da morte, é apontada hoje, mesmo pela imprensa de oposição aos três últimos governos, como o pólo cultural da região.
Nesse município proletário do ABCD paulista, com 316 mil habitantes comprimidos em cerca de 30km² encravados entre a Represa Billings e os municípios de São Paulo e São Bernardo do Campo, onze Centros Culturais espalhados pelos diversos bairros atenderam, apenas no último ano (1996), em suas oficinas nas diversas linguagens, cerca de 2.000 pessoas (crianças, jovens e adultos). Quase absolutamente todos de baixa renda.
Nos Centros Culturais, duas categorias básicas de atividades põem a nu os eixos que balizaram, durante a última gestão, a ação política do Departamento de Cultura: as oficinas de artes e o programa de difusão cultural.
Com as oficinas, os freqüentadores do centro experimentam as diversas linguagens e técnicas, têm sua iniciação enquanto sujeito do fazer artístico e, ao terem acesso ao fazer, conquistam não apenas o direito à fala, mas, o que é muito importante, desfetichizam aquela “arte”, desmontam o inefável, dando passos firmes na direção da cognição dos signos e suas relações. Mais ainda, exercitam e desenvolvem seu potencial de expressão – de criador de novos símbolos, de organizador/desorganizador de discursos e normatizações. E como se tornam subversivos! E como são capazes de pensar e expressar dimensões antes impensadas ou impensáveis da realidade (objetiva ou subjetiva – tanto faz)! Idealizam. Propõem. Realizam. Refletem. Produzem portanto conhecimento, uma vez que criam. O conhecimento é sempre um exercício de criação.
Ao lado das oficinas, há a difusão cultural: apresentações de teatro, música, dança, exposições, filmes. vídeos, etc. Ou seja, os Centros Culturais são também o espaço onde circulam as produções locais ou de além limites municipais. Os símbolos, os discursos, as comunicações não se bastam em si. Eles precisam de um público o interlocutor -, em que se realizam. De preferência, enquanto diálogo. Os Centros Culturais são também o espaço desse diálogo. Ali são apresentados, como já dissemos, todos os tipos de linguagens e técnicas. Os participantes das oficinas mostram seus trabalhos e conhecem os dos outros. Convivem aí o mais elaborado e o mais espontâneo. E se os nossos artistas que participam das oficinas são cerca de 2.000, o público que vai às mostras é incalculável. São os do bairro e os de fora do bairro; os do município e os de municípios vizinhos. Acumula-se o que se chama de “massa crítica”. Porque o fazer artístico não se restringe a pintar um quadro, compor uma música, encenar uma peça de teatro e assim por diante. O fazer artístico é também se deter numa pintura/desenho/colagem; é ouvir ou dançar uma música; é assistir uma encenação teatral e assim por diante. Toda essa relação de fruição com os signos, os discursos, os conhecimentos expressos nas diversas linguagens é também faz
A história é a história. E o processo de construção (criação) de uma política para as artes e simbolizações em Diadema, nesses 14 anos, certamente não poderia ter sido outro senão o que foi, a despeito das intenções, vontades ou versões de indivíduos isoladamente. Maior ou menor, o imponderável também cumpriu o seu papel.
Enfim, como é mais que sabido, o concreto é concreto porque é síntese de múltiplas determinações, algumas das quais, muitas vezes, só temos clareza a posteriorio que cria a possibilidade, sobretudo por parte dos poderes de manipular os fatos, criando suas histórias oficiais nas quais o imponderável e a possibilidade de ações dos anônimos e de tudo o que estiver fora do controle desses poderes inexistem. Criar a ilusão para as maiorias de serem “oniscientes, onipresentes e onipotentes” faz parte da lógica de reprodução desses poderes que pretendem – conscientemente ou não- encarnar o conceito de divindade que, à sua imagem e semelhança, a cultura judaicocristã criou e impôs ao Ocidente.
A ação dos anônimos e sua dimensão dependem de sua organização e projeto, e do conceito e grau de democracia constituintes dos poderes, e ou do grau de desorganização desses. Do que podemos observar ao longo do tempo, tem sido mais a desorganização do que o caráter democrático dos poderes que têm mais favorecido a ação dos anônimos quando organizados com projetos claros.
Afirmamos: o imponderável e ações de sujeitos deslocados da cúpula do poder em Diadema, certamente foram importantíssimas nestes 14 anos para que chegássemos onde chegamos. E se a síntese presente nos parece mais adequada e nos satisfaz melhor, temos que ter a clareza de que isto significa tão somente que se conseguiu superar algumas contradições, criando-se condições para que outras surjam e/ou amadureçam num novo patamar. Mas nada aqui é inexorável ou irreversível, como pretendem as leituras teleológicas e idealistas dos processos.
Resumindo: demos um importante passo nos últimos quatro anos. A satisfação de tê-lo feito, no entanto, obriga-nos simplesmente a continuar andando. De toda maneira, o tempo,do mesmo modo que nos aguarda, nos responderá com uma de suas faces, como cabe ao tempo. Como cabe aos homens e às mulheres que o criam e recriam a cada aurora ou a cada entardecer, expressando com símbolos suas mutações.
Para tudo isto, porém, estamos convencidos de que é preciso muita arte.
Diadema, dezembro de 1996