CONTOS BRASILEIROS
Autor(es): Alipio Freire, Carlos Rodrigues Brandão, José Arrabal, Marcia Camargos, Maria José Silveira, Mouzar Benedito, Roniwalter Jatobá
2006, 80 páginas, | Editora: Expressão Popular
Contos Brasileiros é um livro de histórias que cada um de vocês recriará de acordo com sua experiência e imaginação. E é nesse papel de recriadores de histórias que vocês serão capazer de inventar novas soluções para os assuntos abordados pelos sete contadores de casos que escreveram para este livro.
A LONGA MARCHA por Alipio Freire
“O concreto é concreto porque é a síntese
de muitas determinações, isto é, unidade do diverso”.
(Karl Marx)
A jovem vai caminhando estrada afora, na fila indiana que se estende pela margem do asfalto. Diferentemente de seus companheiros de jornada, não usa o boné ou o chapéu vermelho com os símbolos do Movimento. A cabeça vai exposta ao sol, sem qualquer proteção.
Já marcham há quatro dias. À noite acamparão às portas de Brasília. Amanhã será o dia da manifestação pelas àvenidas da capital, com faixas e palavras de ordem a exigir reforma agrária e outras mudanças que o governo prometera durante a campanha que o elegeu. São quinze mil homens e mulheres, jovens, adultos e velhos. Vêm de todo o Brasil.
A jovem é morena, usa calça jeans justa, que vai até pouco abaixo dos joelhos, e camiseta vermelha do MST. As olheiras profundas e a palidez dos lábios dizem de grande cansaço. Nada, porém, esconde sua juventude. Edvânia é quase uma menina. É uma adolescente. Tem 14 anos.
Durante todos esses dias, ela marchou sem descanso. Quando acampam, está sempre trabalhando, assumindo as tarefas mais pesadas das brigadas. Come pouco e só dorme quando o último dos companheiros se recolhe. É das primeiras a levantar.
Seus pés pisam a estrada, mas o pensamento está longe. Na cabeça ressoa a voz da avó Guilhermina, a velha Mina, mãe do seu pai, comentando na porta da casa com as vizinhas sobre a mineira Rosaduarda, que tem um lote ali no assentamento onde vivem, e que perdeu há pouco uma criança, aos cinco meses de gravidez.
Para a baiana Mina, foi muito esforço que a moça fez:
– Num parava quieta. Ou tava na enxada, ou na cozinha, ou lavando roupa no sol quente! Caminhava o tempo todo, subia e descia morro, e a barriga ali, empinada, sem sossego. Cruge! Mulher prenha precisa assentar o facho, senão acontece isso. Senão aborta – e se benzia, cada vez que pronunciava a palavra.
Essa conversa da avó foi a gota d’água para que Edvânia decidisse finalmente se juntar à Marcha. Ela precisava andar muito, tomar muito sol, se cansar bastante. Desde que a mãe morreu, há quatro anos, ela e seus irmãos passaram a ser cuidados pela avó e pelo pai, o Nardão. Com Edvânia, eram cinco filhos: quatro mulheres e o menino Edmar, o caçula.
Seo Nardão só aceitou parar de ter filhos depois que nasceu um homem. Edmar ainda mamava quando a mãe, dona Cocó, engravidou de novo. Dessa vez, dona Cocó teve permissão do marido para procurar uma parteira e tirar a criança.
Foi uma desgraça: hemorragia, infecção e morte.
Agora era ela, Edvânia, que estava ali, no meio da estrada, caminhando sob o sol, uma criança na barriga, confusa e cheia de medo. Um medo entalado, por não ter com quem conversar sobre o assunto. Só pode falar com o namorado, mas ele também não tem respostas.
No assentamento
Valdeci arrasta o latão de leite vazio de dentro do barracão da cooperativa para o terreiro. Puxa uma mangueira, coloca a ponta dentro do latão, vai até a torneira e abre. Enquanto a água enche avasilha, senta numa pedra mais afastada e acende um cigarro. Fica ali cismando, cabeça baixa, os cabelos loiros caindo sobre a testa. É por causa desse cabelo e da pele muito branca que tem o apelido de Polaco.
“Que cagada!” – pensa.
Um filho era tudo o que não podia acontecer. Não vai deixar Edvânia na mão, mas acha que não é o culpado por nada daquilo. Meses atrás ele estava tocando violão com os amigos e ela não saía de junto. Só ali, cercando. Ele fingiu que não percebeu. Daí ela foi mais pra perto e roçou com o corpo no braço dele. Ele é homem e não ia fazer papel de bobo. E também ela é bem jeitosa. “Bem bonitinha, chê!” Encosta que encosta, olha que olha, não deu outra: quando viu, já estava cantando para a guria:
“Noite escura, noite escura
Prenda minha
toda noite me atentou…”
No depois, ela disse que não foi nada assim, que foi ele que ficou cantando e olhando para ela com olhar de frete.
Mas, de verdade – ele pensa -, talvez tenham sido as duas coisas.
O certo é que, passados alguns dias, a caminho da cooperativa, viu seu pai cruzar com seo Nardão e dizer meio aperreado:
– Compadre, é melhor prender suas cabritas que meus bodes estão soltos…
E seo Nardão respondeu:
– Está me estranhando, compadre Miguel? Acho bom é você tomar tento com seus bodes machos, pois quem mexer com minhas cabritas eu capo.
Nessa hora, Valdeci sentiu até um frio subindo pelas partes.
Desde que Edvânia começou a desconfiar da gravidez que o Polaco está meio desesperado. Uma vez, ela lhe falou de fugirem para uma cidade grande e distante dali. Mas como ia ser? Primeiro, ele não queria mesmo ter filho. Depois, o que iam fazer na cidade sem dinheiro, sem emprego e com uma criança? Ainda por cima, eram menores de idade…
Ele acha melhor tirar a criança. Ouviu falar que na cidade próxima tem uma aborteira. Mas como fazer? Aborto é coisa proibida e perigosa. Além de tudo, não têm dinheiro.
O fato é que ele não quer ter a vida de seu irmão Anderson, que acabou casando aos 17 anos porque embuchou a namorada e, agora, com 21 anos, já tem três filhos.
“Vida besta!” – pensa.
O Polaco tem 15 anos e quer ter outra vida, embora não saiba muito bem qual.
Talvez ele pudesse ir falar com aquele povo que mora lá na beira do assentamento. Dali saía dinheiro na certa. São uns caras que não trabalham, mas estão sempre na estica. Uma vez até lhe ofereceram algum dinheiro, quando ele demonstrou ter gostado do tênis de um deles. Traficam drogas. O pessoal mais velho acha que eles estão ali a serviço dos fazendeiros da região, para minar e desagregar o assentamento, e desmoralizar o Movimento. Mas, se ele se decidisse, dali saía grana. Chegou a falar com Edvânia sobre isso. Mas ela cortou logo o papo.
O Polaco acha que foi tudo “um puta azar”. Conhece um monte de amigos que dizem transar com as namoradas, e nenhuma en-gravidava. E dizem também que não usam qualquer tipo de contraceptivo. Ou será que são histórias inventadas que os amigos contam para se gabar? O Maurício e o Alemão formam uma dupla da pesada. Vivem falando de suas aventuras, e ainda repetem sempre que não usam camisinha porque não gostam de “chupar bala enrolada”… Mas será mesmo, ou será que ele que foi trouxa e entrou numa fria?
Com os pais, nem pensar em falar sobre o assunto: na certa leva uma surra e o obrigam a casar. Foi assim que fizeram com o Anderson. São muito religiosos, e aborto é uma palavra que não entra na casa.
A única pessoa com quem ele poderia desabafar seria com o tio Carlão. Mas Carlão foi para São Paulo, ajudar na secretaria nacional do Movimento e agora coordena uma editora. De vez em quando lhe manda livros, mas ele não gosta de ler, não. É muita letra e já bastam os livros da escola e dos estudos de fins de semana. Ali no assentamento é assim: trabalho, estudo e luta. Fora isso, não tem muito o que fazer. Fora isso, só dá mesmo para tocar violão e namorar. Namorar é bom, mas tem esses enroscos.
Quanto ao violão… bem, tem ainda de aguentar o nó-cego do Januário, que só quer que ele toque os hinos e outras músicas da luta.
– Acorda, Polaco, que a água tá derramando toda. A gente lá parado, esperando o latão, e tu aí com essa cara de quem comeu e não gostou… Tá ficando leso, rapaz?
Valdeci levou um susto com a voz do Zelão, o coordenador. Afasta com o braço a mecha de cabelo que caía sobre a testa e vai cuidar do trabalho.
A última parada
A Marcha chega ao lugar onde iriam passar a última noite antes de entrar em Brasília.
Edvânia senta-se um pouco para descansar ao ar livre. As estrelas começam a aparecer. Naquela região as noites costumam ser frescas, com uma temperatura agradável.
Edvânia está quieta, pensando em seus problemas, quando chega a Tere.
Tere é do Movimento das Mulheres Camponesas, o MMC, e desde o começo da Marcha percebeu que a menina não estava bem. Volta e meia, procura Edvânia para saber o que está sentindo, para ver se precisa de alguma coisa.
Várias vezes Edvânia pensou em contar tudo para a Tere e pedir ajuda. Mas sempre desistia, desconversava, embora achasse que a desconfiava do que estava acontecendo. Será? Desde que acamparam naquele fim de tarde, começou a sentir uma dor na parte inferior da barriga e seu medo aumentava. De novo, não contou nada para a amiga, que ficou ali conversando um instante e em seguida se despediu.
Tere tem por volta de 30 anos, é catarinense, e Edvânia a conheceu há pouco tempo, há uns oito meses, quando ela e outras mulheres do MMC estiveram pela primeira vez no assentamento Bela Kun para fazer uma discussão sobre a condição das mulheres. Chegaram com suas bandeiras lilases, fizeram palestras e começaram a organizar um grupo de militantes. Tere e outras companheiras apareceram novamente no 8 de Março, Dia Internacional da Mulher, quando fizeram uma comemoração. Edvânia convidou o Polaco para a palestra, mas o jovem resistiu, dizendo que aquele era um assunto de mulheres. Ele não foi. Durante a palestra, Tere disse que a grande maioria das mulheres do campo ainda não tem o direito ao acompanhamento ginecológico permanente, aos métodos contraceptivos seguros e aos absorventes higiênicos. Falou também sobre as doenças sexualmente transmissíveis. Eram palavras e expressões novas que a menina ainda não conhecia, mas cujo significado e sentido foi decifrando através das explicações e exemplos. Foi assim que Edvânia ficou sabendo melhor quais são os sinais de gravidez. E é por isso que acredita que está grávida. A barriga ainda não cresceu, mas os seios estão um pouco inchados e a menstruação não vem há dois meses.
De repente, a menina pensa:
– E se eu não estiver grávida? Afinal, as companheiras do MMC explicaram que a menstruação pode atrasar por vários motivos, inclusive por causa de nervoso. – E ela anda muito nervosa.
Mas por que os seios estão inchados?
Ela comentou essas coisas com o Polaco e ele até disse que os seios podiam estar inchados porque antes ninguém tocava neles e agora ele vivia pegando. Ele acredita que pode ser também porque ela ainda está na idade de os seios se desenvolverem.
Desde que conheceu Tere, Edvânia decidiu que se juntaria ao grupo da bandeira lilás. Ia continuar seus estudos e participar do MMC. Agora acha que isso não vai acontecer nunca.
Sente-se muito fraca e a dor aumenta.
E se ela morrer, como aconteceu com sua mãe?
A menina lembra da avó contando a história de Aída, a prima que cinquenta anos atrás “se perdeu” com um cabo de polícia e ficou grávida. Tinha 16 anos. O pai da moça a expulsou de casa. Aída não tinha estudo nem profissão e foi acabar na zona de Salvador, com uma filha de colo. Depois, não souberam mais dela. A avó acha que a prima tinha morrido de alguma “doença ruim”.
Edvânia gosta muito da Velha Mina, mas as histórias que a avó conta e o jeito como ela conta sempre metem medo. É esse medo que impede que ela pergunte as coisas para a Velha.
Continuava pensando na avó, quando o Januário passa e pergunta por que a menina estava ali sozinha, daquele jeito. Ela se encolhe com um medo ainda maior, e fala umas palavras rápidas, dispensando a atenção. O homem segue seu caminho, com um risinho no canto da boca. Januário tem mais de 30 anos, uma penca de filhos, é um tanto exibido e tenta de todo jeito ser uma liderança no assentamento Bela Kun. A Velha Mina e as vizinhas não gostam dele. Para elas, Januário sempre diz uma coisa e faz outra: vive dando lição de moral a todo mundo, mas não pode ver um rabo de saia. Canta todas as mulheres.”Numa pessoa dessas não dá pra confiar” – é o que acha a Velha Mina.
Edvânia começa a sentir frio. As mãos estão geladas.
As dúvidas do Polaco
Naquele fim de tarde, o Polaco sai da cooperativa, mas não volta direto para casa. O céu ainda está claro e faz muito calor. Fica vagando pelo caminho. Em seguida, vai até à beira do riacho e sentano barranco da margem. Arregaça as calças, tira a botina e põe os pés dentro d’água, enquanto limpa, com a ponta da faca que sempre carrega na cintura, o barro grudado na sola do sapato.
Cresceu no acampamento, embaixo da lona preta, onde tudo era muito difícil. Agora que haviam conquistado a terra, que têm casa e trabalho, que as coisas haviam melhorado e que ele até pensa em fazer um curso de técnico agrícola, se meteu naquela confusão.
Gosta de Edvânia. Foi a primeira mulher com quem transou, embora tivesse deixado que ela acreditasse que ele já havia conhecido outras mulheres. Mas não quer casar, e muito menos ter filho. Além disso, não tem muita certeza de que ela fosse virgem. Sempre ouviu dizer que mulher séria e virgem não goza na primeira vez, quando perde a virgindade – foi o Januário quem explicou isso. E com Edvânia não foi assim: já da primeira vez, a menina teve orgasmo. No entanto, nem pode mais pensar nesse tipo de coisa, pois se tiver de casar não quer que ninguém saiba ou desconfie que sua mulher teve outro homem que não ele.
Certeza da gravidez de Edvânia, ele às vezes tem, e outras não. Não que ela estivesse inventando aquelas coisas. Mas é que em muitos momentos acha que a namorada anda impressionada demais, nervosa demais. Ela mesma lhe havia dito que nervoso e tensão podiam fazer com que a menstruação não viesse, que atrasasse. Nessas horas, torce para que seja somente isso e até acredita que o susto vai passar logo e, quem sabe, amanhã ou depois tudo estará outra vez normal.
Na verdade, ele se sente muito burro e se culpa. Poderia ter ido ao posto de saúde e falado com o médico sobre como evitar gravidez, pedido ajuda. É verdade que pensou nessa possibilidade, mas teve medo de o médico achar que ele era ainda um guri e lhe dar uma bronca. Depois de tudo que aconteceu, Edvânia não quer nem ouvir falar de conversa com médico. Ela é menor de idade e acredita que, se contar para o médico que está grávida, ele certamente vai mandar chamar sua família.
Não estar participando da Marcha, como das outras vezes, é também uma questão que o atormenta. Sente-se culpado por isso. Acha que não foi correto, mas não estava com cabeça para seguir com os companheiros. Às vezes se arrepende. Outras vezes pensa que, quando a cabeça não está boa, em vez de ajudar, a gente só atrapaIha. Nesses momentos ele argumenta consigo próprio que tem problemas que, se a gente não resolver, ninguém resolve pela gente. Daí – acredita – é melhor dar um tempo do que ficar enchendo o saco dos outros. Mas que problemas ele estava resolvendo, ficando ali no assentamento? Sente-se encurralado. Nunca se imaginou numa situação dessas. Seus amigos não entendiam o motivo dele ter ficado e, em casa, sua família estranhou sua decisão. Anderson fez de tudo para que ele o acompanhasse, e o pai tentou obrigá-lo a seguir com seus companheiros. A mãe olhava desconfiada e, talvez por não saber exatamente onde colocar sua desconfiança, fazia silêncio. Esse silêncio também constrangia o Polaco – mas era o jeito dela. Desde o início, Edvânia insistira para que ele fosse, embora a menina tivesse durante muito tempo dúvidas se em todas as Marchas, deveria ou não participar neste ano. Mas Edvânia era a única pessoa que sabia os verdadeiros motivos da sua recusa. Então, com ela, a discussão era diferente. Agora, não adiantava mais. Ele acompanhava a Marcha pelas notícias da rádio. O pessoal já estava chegando a Brasília e ele continuava ali, no assentamento, lidando com as coisas do dia a dia e sem resolver nada.
Polaco continua mergulhado em seus pensamentos e, quando se dá conta, já havia escurecido. Levanta, se arruma e segue para casa, desejando que o pai estivesse em alguma reunião da direção do assentamento. Nesses últimos tempos, o jovem tem evitado o pai o quanto pode. Tem medo que seo Miguel descubra nos seus olhos o que está se passando.
A batalha em Brasília
O sol está alto no céu muito azul da capital. Os camponeses, que já haviam marchado pelas avenidas de Brasília, dirigem-se, primeiro, ao Congresso Nacional, onde são recebidos por uma comissão de deputados e senadores.
Agrupados numa massa compacta, os manifestantes vão em seguida para o Ministério da Fazenda. Além de reforma agrária, exigem mudanças na política econômica.
Edvânia segue entre seus companheiros, segurando na ponta de uma faixa onde está escrito “REFORMA AGRÁRIA JÁ”. A dor no ventre aumentou, transformou-se numa cólica, primeiro leve, mas que parece crescer. Edvânia tem medo do que vai acontecer e já começa a suar frio.
O prédio do Ministério está guardado pela Polícia Militar, que mantém os trabalhadores rurais a distância. A massa tenta avançar, mas está contida. Várias vezes aqueles milhares de homens e mulheres ameaçam dar mais um passo à frente e retrocedem. Gritam palavras de ordem e as bandeiras vermelhas estão abertas, tremulando no alto, balançadas pelo vento.
Edvânia não larga sua faixa, mas sente que não aguentará muito tempo.
De repente, a tensão torna-se confronto seguido de correria, enquanto alguns homens lutam corpo a corpo com a polícia e um pelotão de cavalarianos dispara em carga contra a multidão.
A massa tenta se dispersar e Edvânia começa a correr. A barriga dói, as pernas doem, os braços doem, o corpo todo dói. Mas ela já não sente. É preciso correr. É preciso escapar do cerco. Do seu lado, um companheiro recebe um golpe na cabeça, gira sobre os pés e grita antes de tombar enrolado na bandeira do Movimento, o punho cerrado para o alto: “Viva o povo brasileiro!” O grito ecoa possante e parece tomar conta do céu de Brasília. Mas Edvânia não se dá conta da cena. Ela apenas precisa se safar e continua correndo em meio à fumaça das bombas de efeito moral, à gritaria e ao ruído surdo das patas dos cavalos sobre o asfalto. Um alazão vem a todo galope em sua direção. O policial, de capacete e escudo, levanta o cassetete e parte sobre a menina. Ela ouve a voz de Tere gritando o seu nome e em seguida já não percebe mais nada. É como se a luz do sol lhe tivesse queimado os olhos. Apaga.
Agora Edvânia é apenas um corpo que flutua no ar e em seguida de despenca imóvel sobre o chão, meio a uma poça sangue.
Oito horas mais tarde
No quarto, tudo é branco: as paredes revestidas de azulejos, a luz, as divisórias entre os leitos, as camas de ferro pintado e os lençóis. É isso que Edvânia vê, à medida que abre os olhos, sem entender ainda que se trata da enfermaria de um hospital. Só aos poucos percebe o soro ligado ao seu braço e sua testa enfaixada. Vira a cabeça, devagar, para a direita. Numa cadeira, ao lado da cama, está Tere, que lhe sorri.
Ainda sob efeito de remédios, a menina quer saber o que aconteceu, mas não chega a perguntar. Tere entende que é preciso explicar, e conta que, em consequência da pancada desferida pelo policial e o impacto da queda, Edvânia desmaiou. Perdeu muito sangue com um corte na cabeça e, também, com a menstruação desencadeada naquele momento. Por isso o hospital, os sedativos e o soro.
Edvânia chora de mansinho, fecha os olhos e dorme outra vez.
Lá fora, a vida prossegue e a luta continua. A direção está reunida para avaliar a Marcha e decidir os novos passos do Movimento.
