Alipio, para quem o limite sempre foi apenas um novo começo
por Adelina Schlaich
Quando o Alipio atravessava o salão da Barão de Limeira até a Editoria de Internacional, coluna ereta e olhar firme, era como uma força em movimento lançando energia por onde passava.
O ano era 1977. Ainda vivíamos sob a ditadura civil-militar – em abril o Congresso foi fechado durante 15 dias pelo general de plantão, Ernesto Geisel. Mas também foi o ano em que o silêncio começou a ser rompido. Os estudantes reocuparam as ruas com a palavra de ordem Pelas Liberdades Democráticas e realizaram as primeiras passeatas desde 1968. Os movimentos sociais se reorganizavam.
Na Editoria de Internacional, nossa atenção estava voltada para o que acontecia fora do país, em particular para os protestos criativos de estudantes e operários nas cidades de Bolonha e Roma, na Itália, os avanços da frente sandinista na Nicarágua, a emancipação anticolonial nos países africanos, a onda direitista na Latino América. As notícias ainda chegavam por telex – lentamente, em longas tiras de papel.
Tomando café entre um telex e outro ou diante da máquina de escrever tentando dar forma às notícias, as conversas com o Alipio eram frequentes e vêm fortemente à lembrança. Escuto a sua voz, calma e assertiva. Os acontecimentos adquiriam sentido através dos seus comentários e reflexões. As tiras de papel não eram mais fragmentos de realidade mas iam tecendo uma rede que ajudava a compreender o mundo e ao mesmo tempo o papel que nos cabia nesse conjunto aparentemente caótico. Eram aulas de geopolítica, embora muito longe de terem o tom sério ou professoral da academia. Ao contrário, eram pontuadas por seu humor fino e perspicácia aguda. Acho que todos nós, da Editoria de Internacional da Folha de São Paulo entre 1977 e 1980 somos de algum modo tributários da cultura e do conhecimento do Alipio e de sua maneira generosa de compartilhar esse conhecimento com aquela jovem equipe de jornalistas, ávidos por interpretar o mundo para transformá-lo em profundidade.
O Alipio não era de ficar falando dele o tempo todo mas também não fugia das perguntas. Foi assim que fui descobrindo aos poucos a sua história e conhecendo melhor uma parte importante da resistência à ditadura – os movimentos, os personagens. Acho que ele percebia que minha curiosidade exprimia um desejo profundo de melhor compreender a nossa história recente, já naquela época mergulhada nas fake news produzidas pela direita no poder. Quanta dignidade nas vidas colocadas à serviço da derrubada de uma ditadura sangrenta que tinha sido instaurada quando eu ainda era uma adolescente de classe média e pouca cultura política.
Foi na Folha de São Paulo que vivemos a greve dos jornalistas em 1979. Nas reuniões sindicais e na organização dos companheiros de redação, na qual Alipio teve um papel preponderante. Mais do que uma simples reivindicação salarial, um movimento que se politizava pelo exemplo dos trabalhadores do ABC e pela necessidade de confrontar a ditadura e o cerceamento às informações. Embora a mobilização tenha sido grande, gráficos e radialistas não pararam. Os jornais continuaram a circular, apesar da campanha estampada nos grafittis: “não compre jornais, minta você mesmo”. O fracasso da greve ajudou a alavancar nas posições chave das redações a banda pior da categoria. Mas as conversas com o Alipio, sobre o papel social do jornalista e a ética na profissão, ecoaram durante toda a minha vida profissional. Demitido da Folha, candidato a deputado pelo PT, lembro numa visita à sua casa (palco de festas memoráveis) de ter observado uma compra recente, um quadro novo pendurado na parede. Observei que era uma compra ousada, em época de falta de dinheiro e de emprego. Com a mesma verve de sempre, a resposta do Alípio foi também uma declaração de dignidade: “se eu tiver que sair dessa casa, quero que a mudança só tenha coisas belas”.
As coisas belas eram uma parte importante da vida do artista e poeta Alipio, que eu pude conhecer desde que entrei na Folha. Todos os dias, ao chegar na redação, encontrava sobre a minha mesa uma folha de papel com um desenho, uma poesia, uma tirada irônica, brilhante, reflexiva, daquelas tão típicas do Alipio.
Assim era o Alipio que eu conheci naqueles anos setenta e início dos oitenta.
Alipio, para quem o limite sempre foi apenas um novo começo, leva sempre nossa eterna gratidão por ter feito parte num breve momento desse pedaço de vida, desse entre-horizontes, e por tudo que nos ensinou.
Foi só então que cheguei ali, aqui, no horizonte, limite, na fusão das águas do mar e dos ares do céu, e percebi que apenas pouco tinha sido andado e que do não mais horizonte onde estava, um novo limite estava colocado”. São Paulo, 27 de Julho de 1978.