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Alípio e o Centenário de 1922

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Walnice Nogueira Galvão

Alípio certamente gostaria de ter presenciado o Centenário da Semana de Arte Moderna de 1922 e a abundância que frutificou em livros, filmes, exposições, programas de rádio e TV, e até uma ópera. Ele se manifestava amiúde como fã do Modernismo. Veja-se este fragmento de um poema em Estação Paraíso:

“Com a memória em 64
os pés em 22
a cabeça em 68
e o coração sem tempo”.

Sua poesia é coalhada de alusões ou citações diretas e indiretas às figuras mais salientes do Modernismo, que ele nunca deixou de reconhecer como mestres. Os trabalhos recentes, suscitados pelo Centenário, trouxeram ângulos inéditos ou questões antigas vistas por prismas novos. E Alípio acharia graça nos que expõem aspectos mais pitorescos.

A exemplo daquele que associa Oswald e culinária. De autoria de Rudá K. Andrade, filho do outro Rudá e portanto neto de Pagu e Oswald, A arte de devorar o mundo – Aventuras gastronômicas de Oswald de Andrade fala da mesa farta e das receitas favoritas.

O assunto engloba outro trabalho, que analisa os cardápios ilustrados dos jantares de gala e banquetes a que Mário de Andrade comparecia e que, em seu ardor de colecionista, entesourava. Intitula-se Modernistas à mesa: a coleção de cardápios de Mário de Andrade (1915-1940), de Paula de Oliveira Feliciano.

Entre esses mais singulares que disputariam a atenção de Alípio, posta-se um estudo de trajes: O guarda-roupa modernista: O casal Tarsila e Oswald e a moda, de Carolina Casarin. Enquanto o dinheiro era farto, antes do Crack da Bolsa em 1929, o casal ia a Paris e encomendava toaletes completas. Oswald fazia questão que Tarsila marcasse presença com roupas não só elegantíssimas como vistosas. É o caso da capa escarlate por ela portada num de seus mais conhecidos auto-retratos (Manteau rouge, 1923). O costureiro de sua predileção foi celebrado no conhecido verso de Oswald: “… caipirinha vestida por Poiret”.

Mas no Centenário surgiram também volumes coletivos mais sóbrios, reunindo ensaios da maior seriedade. Pelo menos três coletâneas de novos estudos foram organizadas e publicadas, uma pela Companhia das Letras e duas outras pelo Sesc. Pela primeira saiu Modernismos: 1922-2022, Gênese Andrade (Org.),. Pela segunda, estes dois: Semana de 22 – olhares críticos, Marcos Moraes (Org.) e Elias Thomé Saliba (Org.). Modernismo: o lado oposto e os outros lados. É de admirar a multiplicação de pontos-de-vista e a vertiginosa opulência desse carrossel de informações, novidades, perspectivas inéditas, velhas polêmicas e discussões em geral.

E não foram só livros, foram encenações teatrais, filmes e músicas.

O documentário Pagu – musa medusa, exibido no Canal Curta!, traz metragens inéditas. Depoimento fundamental é o do grande ator Sergio Mamberti, que a conheceu aos 14 anos e militou com ela no movimento teatral em Santos. A seu ver, Pagu foi um dos mais influentes intelectuais do século XX. E mais o de José Celso Martinez Correa, do Teatro Oficina, que a teve na audiência de seus espetáculos. Além de imagens e cartas inéditas, o neto, autor do livro de culinária, presta mais informações.

Ponto alto é um trabalho de musicologia, que levou Flávia de Camargo Toni, Claudia Toni e Camila Fresca a pesquisar a música executada nas três noitadas da Semana, no Theatro Municipal de São Paulo. Fizeram o levantamento, convocaram instrumentistas e gravaram tudo. O trabalho, sob o Selo Sesc, resultou num álbum com 4 CDs e eruditos estudos. Chama-se Toda Semana: Música e literatura na Semana de Arte Moderna. .

A ópera Café, para a qual Mário escreveu não só o libreto mas também um roteiro minucioso , estreou no Theatro Municipal. A música é de Felipe Senna, com direção de Sérgio de Carvalho, da Companhia do Latão. Montagem vivaz e empolgante, pôs em cena a personagem coletiva dos lavradores e dos estivadores, que passavam fome devido à crise econômica da Grande Depressão, subsequente a 1929. Grandes massas corais apresentam-se, sendo que na apoteose intervêm em cena delegações do MST.

Tudo isso corresponderia aos interesses abrangentes de Alípio, que se desdobravam em ampla envergadura, contemplando as artes e demais atividades do espirito humano.

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