Crônicas da Saudade 1 e 2
por Helenita e Isabel Matos
Crônica da Saudade 1: Quem é o Alipio? por Helenita
“Ah, meu camarada, como dói a vida!” (Alipio)
Nestes primeiros dias de saudade, ele nos deixou no dia 22 de abril, li e ouvi um sem número de depoimentos e lembranças carinhosas de amigos, colegas, companheiros de militância e familiares, procurando construir na minha memória um perfil que o definisse em sua completude.
Não consegui – ele é único em não ser único, ele é múltiplo! São muitos homens em um só homem dotado de múltiplas facetas, de muitas histórias, todas elas encantadoras mas, especialmente, todas elas encantadoramente humana e generosas.
Esta é a minha…
Conheci o Alipio no presídio Tiradentes onde visitava o Aytan, preso como ele, no 1970 dos anos de chumbo. Porte elegante, ar meio blasé, uma figura que se destacava pela altivez e, como tantos outros que ali estavam, não se dobrava às circunstâncias; todos eles as enfrentavam com a extrema coragem de suas juventudes. Ao lado a mãe D. Gildete que junto com outras mães daqueles tempos difíceis – Adélias, Carmens, Alziras, outras Carmens e Anitas, formavam um grupo singular – corajoso, solidário e protetor (verdadeiras leoas) – uma espécie de jardim paralelo…
Mais tarde Alipio se tornou meu cunhado e irmão, então a amizade e o querer-bem só aumentaram, em tamanho, admiração e familiaridade (me chamava carinhosamente de “camarada cunhada”). Como me orgulho de ter vivido tão de perto com este guerreiro de todos nós! Após os cinco anos de prisão ele nunca se abalou, ao contrário, enfrentou e superou todos os percalços que acompanhavam os ex-presos políticos daquele tempo que ainda era de chumbo; viveu depois plena, intensa e corajosamente até agora, ao enfrentar sua última batalha, pela vida.
Alipio fez de suas pinturas, gravuras e “dibujos”, dos seus escritos, da militância autêntica de todas as horas, da vida familiar amorosa e agregadora (três gerações além da nossa) o seu libelo pela justiça e contra a desigualdade, a intolerância e a exclusão!
Este é o Alipio que eu conheci… que não morreu… que encantou e virou estrela! Que deixou em cada um de nós uma saudade imensa, um vazio impreenchível e o seu legado de resistência e humanismo.
ALIPIO PRESENTE, SEMPRE!
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Crônica da Saudade 2: Despedida a quatro mãos por Helenita e Isabel
Meu querido tio Alípio partiu. Pessoa dessas que são grandes, sabe? Artista, poeta, escritor, jornalista, militante, lutador… tantos em um.
Ele era único em não ser único, era múltiplo! Muitos homens em um só homem dotado de múltiplas facetas, de muitas histórias, todas elas encantadoras mas, especialmente, todas elas encantadoramente humanas, no melhor sentido, e generosas.
Dele: “Há duas coisas das quais não podemos abrir mão: de nos indignarmos; 2. de dar risada – inclusive de nós mesmos…”
Porte elegante, ar meio blasé – uma figura ímpar que se destacava pela altivez, não se dobrava. Como fui privilegiada de conviver tão de perto com este guerreiro de todos nós! Me chamava carinhosamente de “camarada cunhada”.
Ai tio, você vai fazer muita, muita falta. Já está fazendo. Te levo comigo no meu coração. Levo seu carinho, seu sorriso e charme, com sua bengala e seu tênis no pé.
Seus versos: “Há sobretudo uma alegria imensa… e o amor e a paixão são acessíveis a todos. Tem até o trenzinho caipira e o bonde da nossa infância… Ah, meu camarada, como dói a vida!” – Estação Paraíso
Putabraço tio. Foi uma grande sorte ter você nas nossas vidas. Te amo para sempre. Este foi o Alípio que eu conheci… que não morreu – que encantou e virou estrela…
28 de abril de 2021