Construir uma ponte para Utopia
Entre as diversas artes apropriadas por Alipio Freire para se expressar, o cinema era não apenas fonte de inspiração, mas também de criação e construção coletiva. Com a colaboração do cineasta Thiago B. Mendonça, siga o roteiro das participações e produções em que Alipio esteve envolvido ao longo dos anos.*
“Entre os filmes que dirigi, Alipio marcou presença em Dia da Mentira (documentário de 2015 sobre o Cordão da Mentira realizado com Marco Escrivão) e Um Filme de Cinema (ficção infantil de 2017). Em Dia da Mentira desempenhou o seu melhor personagem: no papel de si mesmo, representou, junto a Débora Silva (do Movimento Mães de Maio), a alma do Cordão da Mentira, ato de intervenção estética carnavalizada, que lembra as heranças da ditadura no presente. Em Um Filme de Cinema, longa-metragem de ficção infantil que tinha como protagonistas minhas filhas, ele aparecia no papel de Émile Cohl, o grande inventor dos filmes de animação. Uma cena rápida, onde ele fazia mágicas e desenhava seres imaginários no ar, uma espécie de metáfora da alma jovial do próprio Alipio.”
“Alipio era apaixonado por cinema e gostava de conversar longas horas sobre os filmes que o marcaram. Entendia o cinema como documento de um tempo, mas também como um caminho para se chegar na essência do humano, mergulhado em uma formação onde o existencialismo deixara uma marca profunda. A ética de Alipio era povoada de uma estética revolucionária, como mostra um depoimento que deu a seu amigo Renato Tapajós no filme Nada Será Como Antes, Nada?”
Nada será como antes, Nada?
Direção: Renato Tapajós | 1985
Alipio fala na festa de campanha a deputado federal pelo PT, em 1982.
“Dirigiu apenas um longa-metragem, 1964, um golpe contra o Brasil, documentário de fôlego voltado para as novas gerações, que visava esclarecer o que fora o golpe, quem foram seus articuladores e suas consequências. Há neste documentário depoimentos históricos (pessoas que participaram ativamente da resistência, políticos, estudantes, intelectuais e militares), que dão ao conjunto um valor memorialístico da maior importância. E Alípio aborda assuntos geralmente pouco refletidos sobre este momento, como, por exemplo, a questão indígena. Seu filme é um documento sobre esta época, um testemunho de quem viveu no corpo o golpe e suas consequências e um protesto contra revisionismos históricos mal intencionados. Junto com Jango (1984), de Silvio Tendler, e O Dia Que Durou 21 Anos (2012), de Camilo Tavares, forma uma tríade de filmes essenciais para a reflexão sobre o golpe civil-militar de 1964.”
1964, um golpe contra o Brasil
Direção: Alipio Freire | 2013
CLIQUE PARA ASSISTIR o documentário na íntegra
“Um novo filme e uma história de amor derivaram da produção de “1964”: Alipio envolveu jovens realizadores em início de carreira na feitura do documentário e os recebia em casa. Apresentava a eles filmes e histórias e os incentivou a continuar pelo caminho do audiovisual. Grazie Pacheco e Frederico Moreira se conheceram na casa de Alipio, no longo processo de edição do filme, e depois disso começaram a viver juntos. Com incentivo de Alipio e de sua companheira Rita, Grazie foi estudar cinema em Cuba e voltou com um projeto sobre seu mestre nos braços. Lembrança de Um Futuro é um documentário que acompanha Alipio no seu cotidiano de militância: debatendo seu filme com jovens realizadores, participando de discussões sobre a arte e as lutas, desempenhando o papel de memória viva da esquerda. Entre essas andanças incansáveis, o filme faz um percurso entre o presente e o passado de Alipio.”
* Trechos do texto LEIA+
Homenagens
Confira aqui duas homenagens póstumas a Alipio dirigidas por Thiago B. Mendonça, com os companheiros do Cordão da Mentira, das Mães de Maio e Isadora Mendonça, sua filha.