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4113 – Gentil Moura/Praça da República

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Jonathan Constantino

para Alipio Freire,
em memória

Fazia mais de um ano e meio que eu não andava na rua. Precisava esperar os 15 dias depois da segunda dose da vacina. É aquilo: hipertensão, diabetes e essa barriga. São comorbidades cooperativas e não dá pra brincar, não é mesmo? Sim, eu sei, a barriga sempre foi um alerta seu, que na nossa idade não se deve descuidar, que pode causar problemas cardíacos, que força a coluna e coisa e tal. Esse resguardo, de qualquer forma, já faz alguns meses, mas eu não tinha pressa. Adiei a gazeteada.

Colocar a cara na rua foi, no mínimo, curioso. O sol entrando ardido nos olhos, a rua como uma terra nunca d’antes caminhada, um horizonte amplo, muito amplo, amplíssimo. Um cheirinho de liberdade. Tudo divino e maravilhoso. Pelo menos durante os primeiros segundos. Depois, o portão batendo, o motor dos carros em movimento, aquela freada brusca no semáforo e o ranger da borracha da bengala na calçada trazem a gente de volta à realidade. Era a Gal cantando essa música que soava na sua cabeça quando penduraram você no pau-de-arara, né? É, realmente, bonita demais, mas a gente não deixa de se divertir tirando uma onda com as respostas do Belchior pro Caetano. Afinal, a beleza do sol depende se a gente dormiu na rua ou não.

Peguei o velho trólebus, aquele projeto de transporte público entre o veículo elétrico autônomo e o bonde, e que por estar no meio do caminho não é nem uma coisa nem outra, e carrega em si o pior dos dois. Particularmente, eu adoro. O trajeto é o mesmo de sempre: sai do Ipiranga, em direção à Praça da República, desce morro pros lados do Jardim da Glória, sobe morro entre a Aclimação e o Cambuci, aí, entre sair duma rua e dobrar na outra, aquele trambolho desencaixa do fio, o ônibus para, o cobrador desce e vai colocar as coisas no lugar sob os olhares atentos de todos os passageiros, e dum ou outro transeunte da rua, como se testemunhássemos um crime. O som do motor volta, sútil, quase inaudível, o veículo segue, a vida segue. A vida sempre segue.

Acho que foi na Bueno de Andrade, o ônibus parado no ponto, uma velha pegou piolhos do seu cabelo, segurou o inseto nos dedos em pinça e o aproximou dos olhos, o encarando como a um inimigo. De minha parte fechei os meus porque não quis conferir se ela o engoliria ou não. “A gente não pode transformar essas pessoas em meros elementos da paisagem”, é isso que você disse desde sempre, né? Nesse trajeto não se via gente dormindo sob as marquises, pelo menos não com essa quantidade e frequência, só quando ia chegando mais perto do Centro. E se vê, agora, pelo menos uns três condomínios novos. Quarteirão inteiro, daquelas casinhas antigas, sabe, demolido. E o terreno baldio, lagarta do mercado imobiliário, aguardando o casulo do canteiro de obras. O progresso segue em ordem.

Meu plano inicial era fazer o percurso circular do trólebus e voltar. Não é momento para grandes aventuras, não é mesmo? O motorista encurtou o trajeto, alguma coisa a ver com um ato, lá pelos lados da Câmara, algo sobre aposentadoria, um bando de gente. Resolvi pular do ônibus e andei ali pelo Centro velho, caminhei um pouco pela Sé. Lembra dos atos gigantes no meio daquela ditadura do caralho? Porra, a gente tinha uns cinco anos que saído do xadrez. Eram os atos contra a Carestia? Muita gente empolgada, falavam dos ventos da mudança e você, só de sacanagem, mas com a sobriedade de um samurai, dizendo que as transformações eram tão inevitáveis que a própria prefeitura mandara reformar a praça, cobrindo tudo com concreto, para que não restasse nem a poeira dos escarpins das madames que desfilaram pela família, por deus e pela liberdade. E os mais exotéricos acreditavam. Depois do ato, de bater boca com a polícia e pensar os próximos passos, a gente ria. Bom, como você sempre lembra, o concreto é concreto porque é a síntese de múltiplas determinações.

Naquele miolo da Rua Direita vi pernas, muitas pernas, mais do que você no metrô, em 1992. E de mais cores. E vi bundas. Redondas, murchas, pastelares. Bundas são engraçadas, o itabirano estava certo. Me cansei e, lá na Praça João Mendes, peguei o trólebus de volta.

Andando a caminho de casa, percebi que ainda existe a loja de artigos meio hippies. São umas bolsas, umas mochilas, umas sandálias e até umas pochetes feitas de encerado de caminhão. Não sei se as lonas são de fato reaproveitadas ou apenas um fetiche sustentável, uma forma de imprimir um ar de butique, de coisa chique. Ser hippie está na moda. Bem, isso é o de menos, o importante é que entre as bugigangas da loja tinha um elefante, acho que de porcelana, roxo, todo cheio de pedras brilhantes. Foi você quem desceu a rua da Consolação em cima de um paquiderme, no carnaval de 62 ou 63, não foi?

Não sei, só sei que é seu aniversário, e te liguei. Ainda ano passado a gente falou do saco que era estar preso em casa, sem nem poder bater perna pela rua, nem dar aquela mijada na árvore da esquina. Falamos desses patifes fascistas comandando as coisas por aí. E dessa oposição covarde. A grande diferença é que, este ano, o telefone tocou e você não atendeu. Nem poderia.

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